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Estava só pouco acima do permitido para aquele tipo de via. A pressa, por sair com tempo apertado para chegar no destino, o fazia acelerar um pouco mais. De moto, sempre se podia esquivar melhor dos motoristas mais tranquilos e ganhar tempo no trajeto.

Conhecia o caminho de cor, pois o percorria todos os dias. Já olhava à frente, a cada proximidade de cruzamento, e sabia se podia antecipar-se na conversão, caso já visse pedestres na faixa da via contrária, pois sabia que os carros que viessem teriam que estar esperando a travessia dos desmotorizados.

Naquele dia, porém, assim que cruzou a via perpendicular, ouviu uma batida e gritos.

Não estava tão acima do permitido para aquele tipo de via, o que lhe permitiu frear e parar para ver o que havia acabado de ocorrer. Uma pequena multidão já se aproximava, saindo dos comércios locais e da praça que margeava a via.

Desligou a moto, travou o guidão, e fez como seu instinto de manada o mandava fazer. A curiosidade mórbida inerente ao ser humano é irresistível.

Ao aproximar-se da multidão já ouvia os comentários.

– Esse aqui morreu.

– Você, aí, está bem?

– Nossa, que pancada.

– Eu vi na hora que esse entrou de lado no motoqueiro.

E enquanto tentava esticar o pescoço entre as pessoas, que a esta altura não tinham olhos para mais nada que não fosse a cena sangrenta no chão, pensava em como a vida é frágil. Afinal, também estava de moto, e tinha acabado de passar pelo mesmo cruzamento fatal.

Ainda sem conseguir ver o morto, pensou em como a família receberia aquela notícia. Saiu pra trabalhar e não voltou. Vão se revoltar contra o outro motorista, vão passar a vida com ódio, depois que passar a dor do luto.

Será que existe vida após a morte? Será que o motoqueiro sofreu, uma vez que a morte veio tão repentina? Não deve nem ter se dado conta ainda de que desencarnou.

E finalmente a multidão começou a se dissipar com a chegada da viatura policial.

E finalmente olhou, então, estupefato, para si mesmo ali morto no chão.

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Mesa 5

– Não olhe agora, mas ela está aqui.
– Mentira. Sério?
– Acabou de entrar. Não olhe.
– Mas ela vai me ver aqui!
– Não vai, fique bem imóvel.
– Eu já estou tremendo, não existe a menor chance de ela não me ver.
– Shhhh, quieto.
– E agora, o que ela está fazendo?
– Está indo de mesa em mesa. Não acho que vai conseguir fazer isso com todas, são muitas.
– Ela já me viu aqui, está só disfarçando.
– Viu nada, para de… Ei! Olhe pra mim!
– Droga, eu não consegui evitar.

Sentia os olhares todos agora sendo canalizados para si.

– Ela não te viu ainda, pare de dar chance pra ela conseguir.
– Eu sabia que a gente não devia ter vindo aqui. Era muito arriscado.
– Qualquer lugar era arriscado. Faça o seguinte: como ela está olhando pro outro lado agora, levante-se, sem barulho, e entre rapidamente naquele banheiro.
– Mas é o banheiro feminino.
– Não importa, não há ninguém ali agora, e o masculino fica na direção em que ela está olhando. Entre e feche a porta.
– Vão achar que eu sou maluco.
– Prefere que te achem maluco ou que ela te ache?
– Ok, ela ainda tá olhando pro outro lado?
– Está. Vá agora.

E, finalmente, parou de falar sozinho e entrou no banheiro feminino, de súbito.

Procrastinando

Os cabelos molhados, mais a poeira que os deixava ainda mais pesados, atrapalhavam sua visão. Já era pra ter cortado aquela franja havia muito tempo. Aliás, quando aceitou esse trabalho já devia ter raspado logo todo o cabelo.

Mas pensar nisso agora era procrastinar.

Pendurada na única pedra a que conseguiu se agarrar, e com as pontas dos pés mal apoiadas em um galho teimoso que insistia em crescer na encosta da montanha, procurava ao redor algo mais em que pudesse encontrar segurança. As nuvens espessas que formavam um colchão imaginário a 20 metros abaixo de onde estava não permitiam que ela calculasse a distância do chão.

Mas vinte metros já eram uma queda considerável de qualquer forma e pensar nisso neste momento era procrastinar.

Com esforço e dor trocou a mão que usava para segurar-se na pedra pontuda. Os dedos da mão agora desocupada estavam amassados e vermelhos, sujos e arranhados.

Como a terra fina já havia parado de deslizar depois de sua queda, conseguiu finalmente olhar para cima. Viu sua mochila com equipamentos pendurada um pouco mais acima, em outra protuberância saída da montanha.

Reunindo todas as suas forças, retirou os pés do galho e apoiou-os no paredão, e então ganhou impulso para se agarrar em outra pedra mais acima de onde estava. Com mais um impulso alcançou a mochila e um novo apoio temporário para os pés, necessário para mais uma vez ter tempo de pensar em como sair dali.

Com os dentes abriu o zíper do bolso principal da mochila.

Agora, mais perto de conseguir se salvar, só conseguia pensar em quanto demoraria para alcançar a vila, e se conseguiria fazer isso antes que encontrassem seu quarto na hospedagem. Guardar a mercadoria roubada lá tinha sido ingênuo, tanto quanto tinha sido ingênuo não imaginar que poderia ter sido atacada como foi.

Mas pensar nisso agora era procrastinar.

Vens de onde, Astronauta?

– Venho do alto, lá de longe.

– Vens por quê, Astronauta?

– Venho porque tinha que vir.

– Qual tua missão, Astronauta?

– Me disseram que aqui a descubro.

– E se não a descobres, Astronauta?

– Sigo a vida até onde der.

– Ficarás em nossa casa, Astronauta?

– Por alguns anos, sim.

– Para onde irás depois?

– Há muitas alternativas.

– E depois, ainda nos veremos, Astronauta?

– Estaremos sempre em contato.

– Sabes como devemos proceder, Astronauta?

– Não trago mais instruções.

– O que comes, Astronauta?

– Por enquanto, só leite de peito.

Soterrados

– Deve ser uma morte horrível.

– Como?

– Tô pensando aqui, a gente está sempre sob concreto.

– Nem sempre, algumas casas só têm telhas.

– Mas na maioria dos casos é concreto. E vocês, humanos, nem pensam nisso? Nos quilos e quilos de concreto acima de vocês o tempo todo?

– A gente sabe que é concreto, mas não fica pensando nisso.

– E quem mora no primeiro andar de um prédio? Quando a coisa entrar em colapso, todos os outros andares estarão em cima de vocês. \

– Ai, credo, quanto pensamento ruim. Isso atrai, viu?

– O fato de vocês continuarem suas vidas normalmente debaixo de toneladas de concreto é que é perturbador.

– Mas é concreto, é feito para durar.

– Vocês têm muita fé na arquitetura.

Tem um milho verde no seu dente

Não, do outro lado. Isso. Para de fazer esse barulho! Deixa eu ver. Não, tá aí ainda. Claro que não é um milho verde inteiro. É uma casca, um pedaço, sei lá. O que é que cê tava comendo com milho verde? No mesmo restaurante? Eu não vi nada disso. Pelo amor de Deus, para com esse barulho! Eu devo ter um fio dental aqui, espera. Toma. Não precisa de espelho enfia essa merda nesse dente logo.

Olha ali, é ela. Para com essa chupação de dente, isso é importante. Continua gravando. É ela sim, olha a cicatriz. Aqui, usa o binóculo. Viu? É ela. Não, não saiu. Êta inferno de milho. Tá gravando? Fica quieto agora, ela tá pegando o telefone. Liga a escuta. Ok, áudio entrando. Agora é só esperar.