Vens de onde, Astronauta?

– Venho do alto, lá de longe.

– Vens por quê, Astronauta?

– Venho porque tinha que vir.

– Qual tua missão, Astronauta?

– Me disseram que aqui a descubro.

– E se não a descobres, Astronauta?

– Sigo a vida até onde der.

– Ficarás em nossa casa, Astronauta?

– Por alguns anos, sim.

– Para onde irás depois?

– Há muitas alternativas.

– E depois, ainda nos veremos, Astronauta?

– Estaremos sempre em contato.

– Sabes como devemos proceder, Astronauta?

– Não trago mais instruções.

– O que comes, Astronauta?

– Por enquanto, só leite de peito.

Anúncios

Soterrados

– Deve ser uma morte horrível.

– Como?

– Tô pensando aqui, a gente está sempre sob concreto.

– Nem sempre, algumas casas só têm telhas.

– Mas na maioria dos casos é concreto. E vocês, humanos, nem pensam nisso? Nos quilos e quilos de concreto acima de vocês o tempo todo?

– A gente sabe que é concreto, mas não fica pensando nisso.

– E quem mora no primeiro andar de um prédio? Quando a coisa entrar em colapso, todos os outros andares estarão em cima de vocês. \

– Ai, credo, quanto pensamento ruim. Isso atrai, viu?

– O fato de vocês continuarem suas vidas normalmente debaixo de toneladas de concreto é que é perturbador.

– Mas é concreto, é feito para durar.

– Vocês têm muita fé na arquitetura.

Tem um milho verde no seu dente

Não, do outro lado. Isso. Para de fazer esse barulho! Deixa eu ver. Não, tá aí ainda. Claro que não é um milho verde inteiro. É uma casca, um pedaço, sei lá. O que é que cê tava comendo com milho verde? No mesmo restaurante? Eu não vi nada disso. Pelo amor de Deus, para com esse barulho! Eu devo ter um fio dental aqui, espera. Toma. Não precisa de espelho enfia essa merda nesse dente logo.

Olha ali, é ela. Para com essa chupação de dente, isso é importante. Continua gravando. É ela sim, olha a cicatriz. Aqui, usa o binóculo. Viu? É ela. Não, não saiu. Êta inferno de milho. Tá gravando? Fica quieto agora, ela tá pegando o telefone. Liga a escuta. Ok, áudio entrando. Agora é só esperar.

Não era uma sala pequena

Não era uma sala pequena, mas não havia janelas. Não havia teto, mas o que se podia ver não dava muita esperança.

O grupo já estava ali havia muito tempo; não seria um exagero dizer que três gerações já haviam sido criadas ali. Mas não viviam, apenas sobreviviam.

Não lhes faltava comida, disso não podiam reclamar. Pelo menos não da quantidade, já que a qualidade era muito questionável.

Mencionei que não havia nada além da grande sala? E sim, isso implicava que tudo era feito ali. Comer, excretar, reproduzir. Três gerações presas, já sem esperanças de sair. Os mais novos já nem pensavam em sair. Não conheciam outra vida que não a sala. Os mais velhos já não sabiam se estavam sonhando ou se eram lembranças reais quando tentavam se lembrar da vida antes da sala.

O sofrimento do cárcere já não causava tanta dor desde que a segunda geração havia começado a nascer. Esse, aliás, havia sido para muitos um sinal de que a luta não teria frutos, que a liberdade não viria.

No começo, logo que foram presos ali, havia uma sensação constante de que precisavam se esquivar, se esconder. Eram muitos, e aqueles que os mantinham ali nem precisavam olhar quando os atacavam.

Aproveitando-se do desespero por qualquer coisa que lembrasse algo bom, os sequestradores enganavam os reféns oferecendo boa comida. Fresca. Viva. Em comparação com o que tinham para comer desde a prisão, aquelas porções suculentas, ainda que pequenas, eram o suficiente para que mais um irmão se esquecesse do perigo e cedesse à tentação. A última refeição do condenado, tal qual um prisioneiro no corredor da morte.

Dos primeiros capturados, restavam somente vagas lembranças. Vagas recordações de como eram seus rostos.

Tantas gerações presas ali e já não havia tanta diferença entre os indivíduos. Os que sobreviviam apesar dos defeitos congênitos, ou os que tinham a sorte de não terem nenhum defeito visível, prosseguiam na vida reclusa, limitada à sala. Reproduzir-se naquela situação, mais do que escape para a dor através de um momentâneo prazer, era manter viva a esperança de que um dia alguma geração veria a liberdade.

Havia dias em que as mortes eram mais numerosas. O barulho ficava insuportável quando os algozes se posicionavam do lado de fora das paredes da sala. Desciam então, pelo teto aberto, diversos pedaços de comida. A mais cruel das armadilhas que se aproveitava da fome das vítimas. O instinto de sobrevivência cegava seus olhos para o perigo que seria óbvio para qualquer observador externo.

Estar preso ali, porém, tinha tido um efeito devastador na mente dos reféns.

A dor de não poder sair, essa já tinha se transformado em calo.

A dor física, porém, essa era acordada violentamente a cada vez que uma nova vítima se esquecia do perigo de comer.

Maridos, esposas, crianças. Saíam com vida da sala, debatendo-se vigorosamente tentando se soltar da armadilha. A morte era sempre implícita, pois não voltavam. Se todos os que saíram tivessem sobrevivido, com certeza já teriam conseguido libertar suas famílias. Certamente teriam usado da liberdade para desmascarar os criminosos de fora da sala, estourar o cativeiro.

Mas sair da sala era sinônimo de morrer.

Havia sido assim até a segunda geração. Até o dia em que um deles, arrebatado dali minutos antes, voltou.

O cheiro do sangue que ele perdia se espalhou pela sala. Seu coração batia mais acelerado do que julgava possível.

Então silêncio.

E então uma chuva de perguntas, de todos os lados da sala.

Sua cabeça mal conseguia concatenar seus milhares de pensamentos; a dor lancinante no ponto onde sangrava o cegava, ensurdecia.

Mas se acalmou. E contou a todos o que viu.

Do lado de fora da sala, ainda pendurado e se debatendo, conseguiu ler a placa que era retirada, bem como a nova que era erguia.

Saía “Pesque e Pague”.

Subia “Pesque e Solte”.

E morria de vez a esperança de um dia verem o rio.

Passa

passaEra uma vez uma uva que não foi comida. Foi colhida, reunida com suas irmãs recém arrancadas, transportada e armazenada. E então exposta ao sol. Foi por causa dele que conseguiu crescer, afinal seus raios fortaleceram a videira-mãe onde nasceu e a permitiram também crescer. Suas irmãs, sempre tão unidas, cresceram junto a ela e eram um cacho feliz, viçoso, radiante.

Ou talvez nem tanto. Afinal, o que veio a acontecer mais tarde foi devido ao fato de não serem consideradas grandes ou pesadas o suficiente. Velhos clichês que acabaram definindo seu destino.

O mesmo sol, que havia sido tão essencial para sua existência, era agora a razão de sua extinção como ser. Já não sabia quantos dias estava ali, jogada no cimento quente. Olhava para suas irmãs que ainda restavam junto a seu pedaço de galho e tentava esconder a lágrima que brotava no canto de seu olho. Tentava enxergar mais ao longe e via as outras, também jogadas, a pele enegrecida e ressecada pelo mesmo sol.

Ouvia a voz dos trabalhadores chegando pela manhã bem cedo para mais um dia em que a jogariam de um lado para o outro, num inferno repetitivo que jamais esperava ter que experimentar. Quantas outras que via em cachos próximos era comidas ali mesmo, por visitantes que passavam por debaixo da parreira. Ficava esperando ansiosa o dia em que seria arrancada por dedos famintos e devorada, suculenta, ali mesmo no meio da plantação.

Mas esse dia nunca veio. Assim como o dia em que sairia daquele inferno parecia nunca mais vir.

Até que então ele chegou. Ela já não ouvia o nome uva quando ouvia que se referiam a ela e às outras. Passa. Era essa então sua nova identidade.

Não conseguia identificar para onde estava indo, pois estava agora apertada com as outras dentro de um saco rudimentar de transporte. A passagem dali para a água que a lavou deu a ela uma pequena esperança de voltar a ser uva, mas o suco que lhe havia sido roubado jamais retornaria.

E então caixa. E avião. E prateleira.

E então, já parte de uma receita, percebeu que ainda seria comida. Seu destino, aquilo pelo qual sonhara, ainda iria acontecer.

Triunfante, encheu-se de felicidade e foi servida num prato junto a uma fatia generosa de chester.

E enfim, escolhida pelo garfo, via aproximar-se a boca que a devoraria, finalmente.

Mas então, cuspida no guardanapo, sentiu pela última vez o sabor da decepção.

SALVEM A DELONIX REGIA!

“SALVEM A DELONIX REGIA!” – diziam alguns cartazes.
A multidão que se aglomerava ao redor da árvore que estava ali havia décadas despercebida provava que a fama às vezes é realmente algo meteórico. A maioria que estava ali passava todos os dias por ela e nem se dava ao trabalho de perceber sua existência. “Obrigado, árvore vermelha, pela sombra!”, frase jamais dita. “Obrigado, linda árvore vermelha, pela beleza de suas folhas”, essa também nunca se ouviu.

“POKÉMON GO É SAÚDE” – lia-se em algumas faixas.

E o começo de tudo aquilo ficava então explicado aos que passavam agora por ali. Numa cidade pequena como aquela, o número de pokéstops beirava o ridículo, e aquela árvore havia sido aleatoriamente escolhida pelo algorítmo do jogo como uma parada para coleta de pokéballs, ovos e outros tipos de bônus do jogo.

Nunca se havia visto tantas crianças aglomeradas naquele cruzamento como nos últimos meses. Sendo um lugar com um trânsito intenso, não era de se admirar. Agora, porém, não só havia subido o número de treinadores de pokémon nas redondezas como estavam todos ali, naquele exato momento, fazendo sua barulhenta manifestação.

A derrubada da árvore pela prefeitura teria passado despercebida, não fosse o novo status de celebridade que ela havia adquirido. A prefeitura estava munida da devida autorização, e havia ainda uma motivação legal e ambiental por trás da remoção da delonix, que agora me escapa. Mas era um procedimento necessário, por mais que tal procedimento jamais devesse ser considerado necessário.

Chegava a ser tocante a preocupação com a natureza que um jogo tão simples havia gerado. Já se falava nos noticiários sobre os benefícios para a saúde que um jogo que te obriga a caminhar traria para as crianças sedentárias de hoje, e agora mais isso! Consciência ecológica!

Até que alguém se deu conta de que o corte da árvore, que estava ali havia décadas, não afetaria o algoritmo do jogo, já que a escolha do ponto havia sido aleatória.

E a multidão se dissipou.

E foi

– Senta aqui, eu volto agora.

– Mas onde você vai?

– Senta aqui, menino. Fica quieto aqui e não sai do lugar, eu volto agora.

– Eu quero ir também!

– Não sai daqui! Se alguém perguntar se você tá sozinho aqui, fala que não. Melhor ainda, não fala nada. Não conversa com ninguém.

– Mas eu vou ficar fazendo o quê?

– Toma esse papel, desenha aí.

– Eu não quero desenhar.

– Então não faz nada. Mas fica aqui.

– Mas e se você não voltar?

– Larga de ser bobo, menino. Espera aqui, já volto.

– Por que eu não posso ir?

– Por que lá não é lugar pra criança.

– Droga.

– Já volto. Tá?

– Tá.

Tá.

– Tá fazendo o quê aí sozinho, menino?

– Tô sozinho, não.

– Tá não. Tá com quem então?

E continuou colorindo.

– Fala, menino, tá com quem?

Silêncio.

– Anda, menino, tô te perguntando!

E lágrimas.

– Tô falando? – perguntou irritado para si mesmo. – Tem três dias que tô te vendo todo dia aqui, menino. Pede um salgado pra um, troca de lugar, pede outra coisa pra outro, some de noite, de dia tá aí, sentado nesse banco.

E soluços.

– Vou chamar é o conselho de menor.

– Eu não tô sozinho! – gritou, querendo acreditar no que dizia.

– Tá não. Eu que tô. Vem comigo. – disse pegando o pequeno pelo braço.

Que não resistiu, e foi.