Mesa 5

– Não olhe agora, mas ela está aqui.
– Mentira. Sério?
– Acabou de entrar. Não olhe.
– Mas ela vai me ver aqui!
– Não vai, fique bem imóvel.
– Eu já estou tremendo, não existe a menor chance de ela não me ver.
– Shhhh, quieto.
– E agora, o que ela está fazendo?
– Está indo de mesa em mesa. Não acho que vai conseguir fazer isso com todas, são muitas.
– Ela já me viu aqui, está só disfarçando.
– Viu nada, para de… Ei! Olhe pra mim!
– Droga, eu não consegui evitar.

Sentia os olhares todos agora sendo canalizados para si.

– Ela não te viu ainda, pare de dar chance pra ela conseguir.
– Eu sabia que a gente não devia ter vindo aqui. Era muito arriscado.
– Qualquer lugar era arriscado. Faça o seguinte: como ela está olhando pro outro lado agora, levante-se, sem barulho, e entre rapidamente naquele banheiro.
– Mas é o banheiro feminino.
– Não importa, não há ninguém ali agora, e o masculino fica na direção em que ela está olhando. Entre e feche a porta.
– Vão achar que eu sou maluco.
– Prefere que te achem maluco ou que ela te ache?
– Ok, ela ainda tá olhando pro outro lado?
– Está. Vá agora.

E, finalmente, parou de falar sozinho e entrou no banheiro feminino, de súbito.

Anúncios

Ok, hora do checklist

Cadeiras limpas, confere.

Talheres alinhados, confere.

Comida pronta, confere.

Janelas abertas, confere.

Ventiladores ligados, confere.

Olhos abertos, confere.

Televisão ligada, confere.

Mata-moscas, confere.

Corpos amarrados o suficiente às cadeiras para não caírem, confere.

Catchup, confere.

Procrastinando

Os cabelos molhados, mais a poeira que os deixava ainda mais pesados, atrapalhavam sua visão. Já era pra ter cortado aquela franja havia muito tempo. Aliás, quando aceitou esse trabalho já devia ter raspado logo todo o cabelo.

Mas pensar nisso agora era procrastinar.

Pendurada na única pedra a que conseguiu se agarrar, e com as pontas dos pés mal apoiadas em um galho teimoso que insistia em crescer na encosta da montanha, procurava ao redor algo mais em que pudesse encontrar segurança. As nuvens espessas que formavam um colchão imaginário a 20 metros abaixo de onde estava não permitiam que ela calculasse a distância do chão.

Mas vinte metros já eram uma queda considerável de qualquer forma e pensar nisso neste momento era procrastinar.

Com esforço e dor trocou a mão que usava para segurar-se na pedra pontuda. Os dedos da mão agora desocupada estavam amassados e vermelhos, sujos e arranhados.

Como a terra fina já havia parado de deslizar depois de sua queda, conseguiu finalmente olhar para cima. Viu sua mochila com equipamentos pendurada um pouco mais acima, em outra protuberância saída da montanha.

Reunindo todas as suas forças, retirou os pés do galho e apoiou-os no paredão, e então ganhou impulso para se agarrar em outra pedra mais acima de onde estava. Com mais um impulso alcançou a mochila e um novo apoio temporário para os pés, necessário para mais uma vez ter tempo de pensar em como sair dali.

Com os dentes abriu o zíper do bolso principal da mochila.

Agora, mais perto de conseguir se salvar, só conseguia pensar em quanto demoraria para alcançar a vila, e se conseguiria fazer isso antes que encontrassem seu quarto na hospedagem. Guardar a mercadoria roubada lá tinha sido ingênuo, tanto quanto tinha sido ingênuo não imaginar que poderia ter sido atacada como foi.

Mas pensar nisso agora era procrastinar.

Vens de onde, Astronauta?

– Venho do alto, lá de longe.

– Vens por quê, Astronauta?

– Venho porque tinha que vir.

– Qual tua missão, Astronauta?

– Me disseram que aqui a descubro.

– E se não a descobres, Astronauta?

– Sigo a vida até onde der.

– Ficarás em nossa casa, Astronauta?

– Por alguns anos, sim.

– Para onde irás depois?

– Há muitas alternativas.

– E depois, ainda nos veremos, Astronauta?

– Estaremos sempre em contato.

– Sabes como devemos proceder, Astronauta?

– Não trago mais instruções.

– O que comes, Astronauta?

– Por enquanto, só leite de peito.

Soterrados

– Deve ser uma morte horrível.

– Como?

– Tô pensando aqui, a gente está sempre sob concreto.

– Nem sempre, algumas casas só têm telhas.

– Mas na maioria dos casos é concreto. E vocês, humanos, nem pensam nisso? Nos quilos e quilos de concreto acima de vocês o tempo todo?

– A gente sabe que é concreto, mas não fica pensando nisso.

– E quem mora no primeiro andar de um prédio? Quando a coisa entrar em colapso, todos os outros andares estarão em cima de vocês. \

– Ai, credo, quanto pensamento ruim. Isso atrai, viu?

– O fato de vocês continuarem suas vidas normalmente debaixo de toneladas de concreto é que é perturbador.

– Mas é concreto, é feito para durar.

– Vocês têm muita fé na arquitetura.

Tem um milho verde no seu dente

Não, do outro lado. Isso. Para de fazer esse barulho! Deixa eu ver. Não, tá aí ainda. Claro que não é um milho verde inteiro. É uma casca, um pedaço, sei lá. O que é que cê tava comendo com milho verde? No mesmo restaurante? Eu não vi nada disso. Pelo amor de Deus, para com esse barulho! Eu devo ter um fio dental aqui, espera. Toma. Não precisa de espelho enfia essa merda nesse dente logo.

Olha ali, é ela. Para com essa chupação de dente, isso é importante. Continua gravando. É ela sim, olha a cicatriz. Aqui, usa o binóculo. Viu? É ela. Não, não saiu. Êta inferno de milho. Tá gravando? Fica quieto agora, ela tá pegando o telefone. Liga a escuta. Ok, áudio entrando. Agora é só esperar.

Não era uma sala pequena

Não era uma sala pequena, mas não havia janelas. Não havia teto, mas o que se podia ver não dava muita esperança.

O grupo já estava ali havia muito tempo; não seria um exagero dizer que três gerações já haviam sido criadas ali. Mas não viviam, apenas sobreviviam.

Não lhes faltava comida, disso não podiam reclamar. Pelo menos não da quantidade, já que a qualidade era muito questionável.

Mencionei que não havia nada além da grande sala? E sim, isso implicava que tudo era feito ali. Comer, excretar, reproduzir. Três gerações presas, já sem esperanças de sair. Os mais novos já nem pensavam em sair. Não conheciam outra vida que não a sala. Os mais velhos já não sabiam se estavam sonhando ou se eram lembranças reais quando tentavam se lembrar da vida antes da sala.

O sofrimento do cárcere já não causava tanta dor desde que a segunda geração havia começado a nascer. Esse, aliás, havia sido para muitos um sinal de que a luta não teria frutos, que a liberdade não viria.

No começo, logo que foram presos ali, havia uma sensação constante de que precisavam se esquivar, se esconder. Eram muitos, e aqueles que os mantinham ali nem precisavam olhar quando os atacavam.

Aproveitando-se do desespero por qualquer coisa que lembrasse algo bom, os sequestradores enganavam os reféns oferecendo boa comida. Fresca. Viva. Em comparação com o que tinham para comer desde a prisão, aquelas porções suculentas, ainda que pequenas, eram o suficiente para que mais um irmão se esquecesse do perigo e cedesse à tentação. A última refeição do condenado, tal qual um prisioneiro no corredor da morte.

Dos primeiros capturados, restavam somente vagas lembranças. Vagas recordações de como eram seus rostos.

Tantas gerações presas ali e já não havia tanta diferença entre os indivíduos. Os que sobreviviam apesar dos defeitos congênitos, ou os que tinham a sorte de não terem nenhum defeito visível, prosseguiam na vida reclusa, limitada à sala. Reproduzir-se naquela situação, mais do que escape para a dor através de um momentâneo prazer, era manter viva a esperança de que um dia alguma geração veria a liberdade.

Havia dias em que as mortes eram mais numerosas. O barulho ficava insuportável quando os algozes se posicionavam do lado de fora das paredes da sala. Desciam então, pelo teto aberto, diversos pedaços de comida. A mais cruel das armadilhas que se aproveitava da fome das vítimas. O instinto de sobrevivência cegava seus olhos para o perigo que seria óbvio para qualquer observador externo.

Estar preso ali, porém, tinha tido um efeito devastador na mente dos reféns.

A dor de não poder sair, essa já tinha se transformado em calo.

A dor física, porém, essa era acordada violentamente a cada vez que uma nova vítima se esquecia do perigo de comer.

Maridos, esposas, crianças. Saíam com vida da sala, debatendo-se vigorosamente tentando se soltar da armadilha. A morte era sempre implícita, pois não voltavam. Se todos os que saíram tivessem sobrevivido, com certeza já teriam conseguido libertar suas famílias. Certamente teriam usado da liberdade para desmascarar os criminosos de fora da sala, estourar o cativeiro.

Mas sair da sala era sinônimo de morrer.

Havia sido assim até a segunda geração. Até o dia em que um deles, arrebatado dali minutos antes, voltou.

O cheiro do sangue que ele perdia se espalhou pela sala. Seu coração batia mais acelerado do que julgava possível.

Então silêncio.

E então uma chuva de perguntas, de todos os lados da sala.

Sua cabeça mal conseguia concatenar seus milhares de pensamentos; a dor lancinante no ponto onde sangrava o cegava, ensurdecia.

Mas se acalmou. E contou a todos o que viu.

Do lado de fora da sala, ainda pendurado e se debatendo, conseguiu ler a placa que era retirada, bem como a nova que era erguia.

Saía “Pesque e Pague”.

Subia “Pesque e Solte”.

E morria de vez a esperança de um dia verem o rio.