Vamos falar de projetos

O que é essa história de Lo siento y cuarenta, Fellippe? Por que a insistência?

Explico-lhes.

O “Lo siento y cuarenta” é um blog colaborativo. Se fôssemos famosos, o Lo siento seria uma coluna num jornal. A cada dia um escreve. A diferença de uma coluna de jornal, é o formato. A liberdade do blog permite que os conteúdos produzidos sejam abertos, desamarrados, poéticos, absurdos, bonitos, agoniantes. Mas ao mesmo tempo impusemos à nossa linda produção um limite semanal.

Um tema.

Eu sempre adorei as aulas de redação na escola, quando o professor propunha um tema e deixava rolar a imaginação. Sempre tive professores de redação inspiradores. Não por suas próprias idéias, mas pela brilhante postura em nos darem ideias e liberdade.

A indústria editorial é cheia de obras que foram produzidas sob encomenda. O nome do autor vende, então pede-se ao autor: escreva sobre isto. E daí surgem obras brilhantes, que talvez sem a propositura formal de um tema não teriam surgido. Talvez o autor sempre tivesse tido uma opinião sobre o tema, mas nunca tinha parado para pensar que daria um bom livro.

Enfim, produzimos sob inspirações que vêm dos mais diversos lugares. Às vezes extraímos leite de pedra. A beleza da criação no Lo siento está no fato de cada autor aproveitar do tema sem perder seu estilo pessoal. Está lá, cravado.

Para quem é de ler, : losientoycuarenta.blogspot.com

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Rehab

Demoram alguns dias a aparecer, mas os efeitos são claramente notáveis. Volto a dormir bem, volto a ler o que gosto, a escrever o que gosto. Volto a pensar em música, não só no consumo, mas também na produção. Volto a tocar meus instrumentos, volto a rir de bobagens que leio por aí. Volto a ter idéias, volto a criar, compor, gravar.

Volto a ganhar peso, mas o que se há de fazer…

Mas acontece que os dias de férias são contados. Os de se trabalhar também são, mas a proporção é humilhante.

E logo estarei sem tempo novamente, intoxicado de trabalho. Graças a Deus.

Mas noutro dia me desinterno, no rehab das minhas faculdades criativas. Que não se extingam, amém.

Rastreamento

Rastreamento de encomenda era para ser em tempo real. Do tipo:

Ocorrências:
#1 – Saiu do estoque
#2 – Entrou no caminhão
#3 – Motorista parou para ir no banheiro
#4 – Tinha um buraco na estrada, o baú deu uma chacoalhada
#5 – Entrando na cidade Tal.
#6 – Tempo bonito, vento a favor.
#7 – Pedágio na altura do quilômetro tal, rodovia Tal.

Ansiedade mata.

Pigarro

Então a otorrinolaringologista me disse que o desgraçado do pigarro não tinha nenhuma causa aparente, depois de percorrer cada canto de meu aparelho fonador com sua lanterna e palitos de picolé. “Beba mais água”, disse ela.
Busquei outra opinião e me disseram ser o pigarro ato reflexo, questão psicológica. Já podia imaginar as criancinhas dizendo umas pras outras “já ouviram falar do doido do pigarro?” e criando lendas e mais lendas a respeito do cara que ficavam de rum rum por aí, graças a um problema psicológico.
Tentei a água. Tentei me observar.
Quanta balela!
Litros e litros de água depois e o maldito ainda me afligia.
O infeliz do rum rum me vinha em situações comuns, como no trabalho. Que audácia dizer que isso seria stress!
Só porque quando estou em casa brincando com meus gatos isso não acontece? Só porque quando estou descansando relaxado isso não acontece? Só porque soo como uma roda emperrada de carro de boi quando estou nervoso?
Gente sem serviço. Vou trabalhar que ganho mais.

Academia neanderthal

Toda vez que me exercito de forma não incidental – e por incidental considero quando arrasto uma caixa, corro atrás dos gatos, subo uma escada -, ou seja, toda vez que paro por algum tempo delimitado para intencionalmente me exercitar, contar movimentos, séries, inspirar, respirar, etc, fico pensando no quanto nossa vida é artificial. Fico tentando imaginar de que maneira o meu ancestral pré-histórico exercitava os mesmos grupos musculares, que atividades eram realizadas no mundo real para atingir os mesmos objetivos.
Bobagem, esse nunca foi o objetivo. O objetivo era caçar. Fugir. Brigar. O meio justificava o fim; o objetivo hoje é o meio de antes.
Ficamos lá, subindo e descendo, empurrando e puxando.
A caça já está na geladeira.
Mentira.
A caça viramos nós. E se o ficar o bicho pega.