Não era uma sala pequena

Não era uma sala pequena, mas não havia janelas. Não havia teto, mas o que se podia ver não dava muita esperança.

O grupo já estava ali havia muito tempo; não seria um exagero dizer que três gerações já haviam sido criadas ali. Mas não viviam, apenas sobreviviam.

Não lhes faltava comida, disso não podiam reclamar. Pelo menos não da quantidade, já que a qualidade era muito questionável.

Mencionei que não havia nada além da grande sala? E sim, isso implicava que tudo era feito ali. Comer, excretar, reproduzir. Três gerações presas, já sem esperanças de sair. Os mais novos já nem pensavam em sair. Não conheciam outra vida que não a sala. Os mais velhos já não sabiam se estavam sonhando ou se eram lembranças reais quando tentavam se lembrar da vida antes da sala.

O sofrimento do cárcere já não causava tanta dor desde que a segunda geração havia começado a nascer. Esse, aliás, havia sido para muitos um sinal de que a luta não teria frutos, que a liberdade não viria.

No começo, logo que foram presos ali, havia uma sensação constante de que precisavam se esquivar, se esconder. Eram muitos, e aqueles que os mantinham ali nem precisavam olhar quando os atacavam.

Aproveitando-se do desespero por qualquer coisa que lembrasse algo bom, os sequestradores enganavam os reféns oferecendo boa comida. Fresca. Viva. Em comparação com o que tinham para comer desde a prisão, aquelas porções suculentas, ainda que pequenas, eram o suficiente para que mais um irmão se esquecesse do perigo e cedesse à tentação. A última refeição do condenado, tal qual um prisioneiro no corredor da morte.

Dos primeiros capturados, restavam somente vagas lembranças. Vagas recordações de como eram seus rostos.

Tantas gerações presas ali e já não havia tanta diferença entre os indivíduos. Os que sobreviviam apesar dos defeitos congênitos, ou os que tinham a sorte de não terem nenhum defeito visível, prosseguiam na vida reclusa, limitada à sala. Reproduzir-se naquela situação, mais do que escape para a dor através de um momentâneo prazer, era manter viva a esperança de que um dia alguma geração veria a liberdade.

Havia dias em que as mortes eram mais numerosas. O barulho ficava insuportável quando os algozes se posicionavam do lado de fora das paredes da sala. Desciam então, pelo teto aberto, diversos pedaços de comida. A mais cruel das armadilhas que se aproveitava da fome das vítimas. O instinto de sobrevivência cegava seus olhos para o perigo que seria óbvio para qualquer observador externo.

Estar preso ali, porém, tinha tido um efeito devastador na mente dos reféns.

A dor de não poder sair, essa já tinha se transformado em calo.

A dor física, porém, essa era acordada violentamente a cada vez que uma nova vítima se esquecia do perigo de comer.

Maridos, esposas, crianças. Saíam com vida da sala, debatendo-se vigorosamente tentando se soltar da armadilha. A morte era sempre implícita, pois não voltavam. Se todos os que saíram tivessem sobrevivido, com certeza já teriam conseguido libertar suas famílias. Certamente teriam usado da liberdade para desmascarar os criminosos de fora da sala, estourar o cativeiro.

Mas sair da sala era sinônimo de morrer.

Havia sido assim até a segunda geração. Até o dia em que um deles, arrebatado dali minutos antes, voltou.

O cheiro do sangue que ele perdia se espalhou pela sala. Seu coração batia mais acelerado do que julgava possível.

Então silêncio.

E então uma chuva de perguntas, de todos os lados da sala.

Sua cabeça mal conseguia concatenar seus milhares de pensamentos; a dor lancinante no ponto onde sangrava o cegava, ensurdecia.

Mas se acalmou. E contou a todos o que viu.

Do lado de fora da sala, ainda pendurado e se debatendo, conseguiu ler a placa que era retirada, bem como a nova que era erguia.

Saía “Pesque e Pague”.

Subia “Pesque e Solte”.

E morria de vez a esperança de um dia verem o rio.

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2 comentários em “Não era uma sala pequena”

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