É meu

Já diz o dito popular: quem empresta, não presta. E não adianta reclamar quando aquilo que você emprestou voltar arranhado, rasgado, sujo, amassado. A culpa é sua, inteiramente sua. Você arcou com o risco quando foi generoso e emprestou o livro, o equipamento, o cd (ainda tenho cds), o pendrive, o caderno com a matéria do dia em que o outro faltou.

Esses dias, porém, andei pensando sobre meus livros. Há os que comprei e nunca li, os que li e não pretendo reabrir, e mesmo em relação aos que gostei demais de ler, fico pensando se um dia vou ter vontade de relê-los. Há o apego, o valor emocional, a lembrança de quando comprei ou ganhei, a conexão com quem os presenteou. Mas há a inevitável idéia que me ocorre de que um livro é descartável.

Ah, mas reler um livro em outra fase da vida é sempre uma outra experiência, a gente lê com outros olhos.

Tá, tudo bem. Mas e os que eu comprei e ainda não li? Eu me sinto traindo cada um deles quando sequer cogito reler um vizinho de estante. Afinal ainda lembro da história, e, por mais que os detalhes tenham ficado nebulosos na minha memória, ainda sei o que vai acontecer com o herói, heroína ou heróis. Comprei o livro pois queria tê-lo, mas no fim da última página ele cumpriu sua missão.

Por que então não passá-los adiante, para que mais pessoas também os conheçam?

Porque quem empresta, não presta.

Então tomei uma decisão. A partir de hoje, não mais emprestarei meus livros. Se alguém se interessar por algum título que eventualmente eu comente ter, a pessoa é a nova dona do livro. Se, ao terminar de lê-lo, quiser compartilhar comigo a experiência da leitura, conversaremos. Se o livro estiver em suas mãos e ela sentir o desejo de me presentear novamente com ele, ele será novamente meu. Se não, tudo bem. Eu já o possuí uma vez e a leitura dele me fez quem sou hoje, pois livros nos transformam.

Então será assim.

Mas se bem que eu posso um dia querer voltar a ler aquela história tão bacana. E se a pessoa não quiser me emprestar de volta? E se eu tiver que me humilhar para poder ter de volta o exemplar que nem custou tanto, mas que era meu de qualquer forma?

Pensando bem, melhor só emprestar.

Mas podem voltar com ele arranhado, rasgado, sujo, amassado.

Vamos fazer assim, você vem aqui em casa e lê o livro aí na sala.

Não, melhor ainda, eu te conto a história.

Melhor ainda, some daqui.

Sai de perto dele.

É meu.

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