É um horror

Essa gente do escritório não tem a mínima noção. Esse maldito ar condicionado no talo e eu aqui, morrendo de frio. E não sou só eu não, olha lá a Márcia batendo o queixo, coitada. Um sol lá fora que Deus dá, tudo bem, mas também não precisa congelar Arendelle aqui dentro, hein? É um horror. Um dia vou esconder essa merda de controle remoto, cê vai ver.
Essa gente do escritório não tem a mínima noção. Pra quê instalar essa merda de ar condicionado se não for pra usar? Um sol que Deus dá la fora, aqui dentro uma sauna, e essa porcaria desligada. Vou ter que passar a trazer uma camisa extra, porque dá 3 da tarde e já tem duas pizzas debaixo de cada braço. Essa mulherada egoísta, puta que pariu.
Essa praga dessa vizinha cantando, Jesus amado! Tá achando que é The Voice, filha? Pelamor… Ouve só! Agora é culto. Ministério de louvor. Filha, se grava e se escuta no fone, filha. Vamo combinar que isso não tá bonito não. Fica querendo dar show, vai lavar a frente da sua casa, porca. Vou ter que aumentar o volume da minha televisão. Fala de novo, Otaviano, que eu não te ouvi! EU TENHO DIREITO DE OUVIR MINHA TELEVISÃO, FILHA!
Essa gente com essa televisão com o volume alto, que falta de respeito! Minha mãe aqui doente, acamada, não pode nem sair do quarto e fica obrigada a ouvir a programação do vizinho. Deus me perdoe, mas podia dar um jeito de mudar daqui. Só causa confusão, desde que veio morar aí do lado. Pestes. ABAIXA ESSA TELEVISÃO PELO AMOR DE CRISTO, CRIATURA! EU NÃO QUERO SABER DO VIDEO SHOW!
Já tem namoradinho? Não vai noivar logo? E o casório? E o primeiro neném? E o segundo neném? Não é bom ter um só, a criança fica mimada. Não quer ter filhos? Crendeuspai! Vai ter uma vida infeliz, quando não puder mais ter vai se arrepender. Pensa nisso hein? E na sua velhice, quem vai cuidar de você? Fica aí, tratando bicho igual criança, isso é errado, viu? Tem que crescer e multiplicar, não pode ser egoísta assim.
Quando vi que ela estava grávida de novo até brinquei, fiz a piadinha da devota de são Bento, mas depois fiquei pensando naquilo. Essa gente que arruma uma penca de menino, que horror, não? Não pensa no planeta, na situação do país. Tanta criança por aí sem família, precisando de uma casa. Esse mundo já tem gente demais! Acho um egoísmo a pessoa que arruma filho já pensando em quem vai cuidar dela na velhice.
Que legal eles se organizarem para doar alimentos para aquelas famílias, não? A gente não pode ser egoísta, vamos separar uns cobertores também. Essa época do ano tá tão frio, né? Deus me livre de não ajudar.
Falsos altruístas, viu só? Só querem aparecer e pagar de bonzinhos, organizando essas doações. Depois que encosta num pobre chega a esfregar a mão na roupa pra não pegar pobreza. Deus tá vendo.
Anúncios

Ainda assim

A definição de som lhe era intangível. Não conseguia conceber os conceitos de barulho, música, voz. Seu mundo era de silêncio profundo.

Mas não era desprovido de sentido.

Nasceu surdo, em uma família de surdos, e conversava usando as mãos. Desde criança, sabia que era através delas que podia interagir com o mundo, e que através de seus olhos recebia do mundo os sinais de que precisava para entendê-lo.

Porém, fora de sua casa, o mundo parava de fazer sentido. Eram tantas bocas que se mexiam, mas não diziam nada.

Aprendeu, já um pouco tarde, que a língua daquelas pessoas também podia ser lida, e se dedicou a aprender. Era preciso que o fizesse, para se virar num mundo que o ignorava, e ignorava sua língua.

Desenvolveu sua compreensão do português e ousou ir além. Em vez de ficar acomodado a uma pensão do governo e aos benefícios que poderia obter por ser “deficiente”, formou-se no curso com que mais se identificou e alguns anos depois foi aprovado num dos primeiros concursos que prestou.

Casado, pai de família. Bilingue, concursado, bem sucedido.

Ainda assim, quando se referiam a ele, era o mudinho da repartição.

Fora

ClWpoK3XEAAulhFAcordou.

Parecia tudo normal, exceto pela dor em cada parte do corpo, com cada movimento que fazia tentando erguer seu corpo da cama.

Tentou se lembrar do que tinha feito no dia anterior que pudesse ter gerado aquela reação física. Nada. Não fazia exercícios físicos e não tinha dançado, então não tinha porque gemer a cada músculo ativado.

Mas quanta dor.

Olhou ao redor e não viu sua esposa. Virou o rádio-relógio para que pudesse ver a hora no display e se preocupou quando viu que ainda eram quatro da manhã. Será que ela tinha ido ao banheiro?

Mas a luz do corredor não estava acesa. Tudo bem que ela tinha mesmo esse costume de sair pela casa no escuro, mas numa noite especialmente escura de inverno como aquela, o trajeto teria sido bem mais complicado sem luzes acesas.

Tentou contato.

– Amor?

Nada.

– Amor?

Nada, mais uma vez.

Levantou-se preocupado e não a encontrou no banheiro, como esperava. Acendeu mais luzes, tentando encontrá-la, agora seriamente preocupado que algo pudesse ter acontecido. Talvez estivesse na cozinha.

Mas com portas fechadas?

– Amor? Tá aí?

Nada.

– Amor?

Ao ligar mais interruptores começou a ter uma sensação estranha de não pertencimento. Que lugar era aquele? Não reconhecia sua casa. Que barulho é esse? Um apito, constante, ritmado. E esse cheiro estéril?

A enfermeira tomou um susto quando o viu no corredor.

– Solange, corre aqui! – gritou, chamando a colega de plantão.

Era a primeira vez que via aquelas pessoas e agora estava realmente confuso. O que estava acontecendo, meu Deus?, perguntava-se.

Logo uma cadeira de rodas foi trazida às pressas, e sem questionar aceitou ser sentado nela, e levado de volta para o quarto.

Os aparelhos e os sinais vitais foram verificados. O médico finalmente chegou e o examinou.

Bem-vindo de volta, senhor. Acho que temos bastante a conversar.

Ele não pode desconfiar

– Ele tá chegando.

– Corre, corre! Todo mundo em seus lugares!

A porta se abriu sem a mínima cerimônia, como de costume. Chave na mesinha e mão no interruptor.

– SURPRESA! – todos gritaram simultaneamente.

– PUTA QUE PARIU! – gritou João. E caiu.

Gritos histéricos.

– PUTA QUE PARIU!

– PUTA QUE PARIU!

– NINGUÉM PRA LEMBRAR QUE O JOÃO ERA CARDÍACO, PORRA?

E todos tão atordoados para encontrar uma solução para o problema, que nem se deram conta de que João já estava de pé, apoiado no batente da porta, rindo até contorcer a barriga de toda a situação.

A tia gorda que já estava com a faca para cortar o bolo na mão ficou irada e partiu aos berros para cima do aniversariante.

– SEU FILHO DA PUTA! ISSO É COISA DE FAZER COM SUA TIA?

Mas nessa hora, por sorte de João, o microfone apareceu na câmera e o diretor gritou:

– Corta!

E fizeram um intervalo para recomeçar em cinco minutos.

Tadinho

Adorava gente. Conseguia conversar e fazer qualquer outra coisa ao mesmo tempo. Detestava ficar sozinha. Adorava puxar papo.

A propósito, chegava agora ao consultório de seu dentista. Até que viu aquele rapaz sozinho lá sentado, esperando ser atendido. – Tadinho, tão quietinho, olhando praquele celular. Ele vai ficar feliz em ter alguém pra conversar, eu sei que eu vou; credo, lugarzinho mais frio e quieto essa recepção… nem uma musiquinha pra fazer companhia.

– Oi!

– Oi.

– Vai tratar dos dentes?

– Vou.

– O doutor é ótimo, você vai adorar o serviço dele.

– Ah, sim. Eu já conheço.

– Ele é ótimo, não é?

– É sim.

– É canal?

– Oi?

– É canal? Vai fazer canal?

– Não sei ainda.

– Canal, Deus me livre de tratamento de canal. Fiz uma vez, quase morri.

– Sei.

– Menino, você precisava ver que coisa horrorosa. Mas, também, tive que fazer uns quatro de uma vez.

– Nossa.

– É, precisava ver. Vai fazer orçamento?

– Oi?

– Vai fazer orçamento? É a primeira vez que vem nele?

– Não, já tratei antes. Mas hoje é orçamento.

– Ele é careiro, viu. Vale a pena, mas pelo amor de Deus, cobra uma fortuna.


Pensava melhor sozinho. Raciocinava melhor. Produzia mais. Não se sentia solitário. Gostava de estar sozinho.

A propósito, estava só na sala de espera. Até que:

– Oi!

– Oi.

– Vai tratar dos dentes?

– Vou…

E conseguia sentir-se solitário não estando só, de tão desnecessárias algumas vezes as pessoas ao redor. Conseguia sentir falta da falta de gente.

Um egoísta mimado, onde já se viu.

Lentamente

Demorou-se alguns segundos pensando nas opções disponíveis na tela de ajustes. Dia, Fim de tarde ou Noite? Noite. Definitivamente. À noite teria mais tranquilidade para raciocinar e absorver todos os detalhes. Deslizou o dedo no nada à sua frente e confirmou a seleção. No próximo menu, clicou em acessórios. Nuvens, Arco-íris, Lua, Estrelas… Optou por estrelas.

Os pontos salpicados deram um clima saudoso à cena. Não sentia saudades de memórias próprias vividas, mas lembrava de ver céus como aquele, que agora começava a montar, nos filmes de antigamente. Aproveitou e acrescentou algumas nuvens perto do horizonte. E uma lua gigante saindo delas.

Com outro traço invisível, surgiram as opções de clima. Escolheu uma temperatura mais alta, para que pudesse ficar ao ar livre. Acrescentou uma brisa leve, e também acrescentou umidade, para que se sentisse confortável e pudesse respirar melhor. Olhou para o indicador de custo, na base do mostrador, mas mesmo com o alto valor resolveu seguir em frente. Estava decidido a aproveitar ao máximo aquela experiência única.

Na tela de seleção de som ambiente, acrescentou grilos e um riacho, não muito distante. Acrescentou árvores numa montanha próxima, para que o vento pudesse ser ouvido através das folhas, mas nada que obstruísse sua visão do alto.

Com tudo escolhido, enviou o pedido e recebeu a confirmação de que o pagamento havia sido efetivado.

Seu coração se acelerou.

Retirou a máscara de oxigênio e desconectou-se dos aparelhos.

Com a ajuda do operador, levantou-se e caminhou com alguma dificuldade até a porta. Raramente usava suas pernas, e sentia dores em cada músculo.

Finalmente, com os olhos marejados, entrou, lentamente, no simulador.