Noutro ato

Sempre tinha sido bom de improviso.

Já entravam no terceiro ato e até então o texto estava fluindo conforme o ensaiado. Na cena que agora começava, sua personagem sentava-se ao piano e tocava algumas notas desconexas, enquanto a personagem dela sentava-se numa das cadeiras que rodeavam a mesa no centro do palco. A luz amarela dava ao ambiente um calor que condizia com o amor que deveria ser representado: quente e vivo, vibrante. O tom noir dos dois primeiros atos tinha agora que dar lugar à luxúria a que deveriam fingir se entregar.

Sozinhos no palco pela primeira vez, desde que tudo havia acontecido.

– O que você vai tocar para mim, um blues? – disse-lhe a personagem.

Bernadete se mostrava profissional como ele jamais esperaria. E por isso sentiu-se confiante para tocar a cena como estava escrito. Idiota, ignorava o perigo para que seu ego se inflasse como gostava.

– Sempre imaginei que você me pediria para tocar jazz. – respondeu, dando voz à ficção.

Neste momento, os dois no meio do palco se jogariam nos braços um do outro e se beijariam intensamente. Mãos, e bocas, e coxas, e costas, e unhas, e pescoço, e nuca. Num diálogo cheio de metáforas e de revelações de sentimentos antes reprimidos, os dois dariam vazão à tensão construída na primeira hora de espetáculo, fazendo juz à classificação indicativa imposta, impressa nos cartazes, ingressos e flyers. O fato de terem a química quase perfeita havia sido crucial na escolha deles pelo diretor para os papéis aos quais agora davam vida.

As luzes mudariam lentamente para um tom ardente de vermelho, que tornaria os elementos também vermelhos da cenografia praticamente monocromáticos aos olhos da platéia. A parca iluminação de antes fazia tudo parecer sem cor e agora o exagero de cor também faria com que a percepção dos tons se confundisse. Seria como estar dentro deles, enxergando suas entranhas, numa cena quase visceral.

Bernadete, porém, fez sua personagem correr para o outro extremo do cenário. Hora de improvisar.

Como a cena requeria ação física, resolver improvisar se inclinando sobre a mesa na direção dela, como quem anseia por algo.

Bernadete alcançou a gaveta do balcão do bar cenográfico. Sua personagem já não estava mais em cena. Hora de improvisar.

Ele então ficou novamente de pé andou até ela, tentando manter a progressão do texto apenas com uma mudança na marcação.

Bernadete então atirou.

Ele levou as duas mãos na barriga onde a bala havia entrado e olhou incrédulo para ela. Improvise, homem! A platéia está tensa.

Bernadete começou a recitar o texto que havia escrito desde terça para aquele momento. Sua voz rouca não vacilou em nenhum momento enquanto dizia cada palavra que queria dizer para ele. Ao ver que o texto não havia sido interrompido, a plateia se acomodou novamente e assistiu ao resto do monólogo que havia acabado de começar.

Ele agora estava de joelhos no meio do palco, olhando para ela, e tentando conter o sangue que perdia. As críticas dos jornais seriam muito elogiosas aos efeitos especiais.

Então um segundo e certeiro tiro, agora no peito.

Bernadete saiu de cena.

Fecharam-se as cortinas.

Aplausos de pé.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s