O novo plano

– Que horas são? – perguntou, sem sequer conseguir distinguir se era dia ou noite pela janela suja que mal conseguia alcançar com os olhos.

Já fazia tanto tempo que estava ali, caído, que já não contava com uma resposta. Apenas falava, para que tivesse certeza de que ainda estava vivo. Se falava e conseguia se ouvir, significava que ainda havia batimento, respiração.

Já era o sétimo dia desde que Deus, em pessoa, havia aparecido. Cada um o viu como quis, pois era preciso que o identificassem como Deus. Não houve fuso horário preferencial. Toda a humanidade, condensada numa planície, reunida num flash repentino, tal como muitos esperavam (tal como muitos jamais quiseram parar para imaginar).

Mesmo ele jamais acreditaria em nada daquilo se não tivesse visto com os próprios olhos. Mas até agora, na verdade, ainda se declarava ateu. Nem mesmo ver Deus o fez crer que Ele existe. Sabia o que tinha visto, mas não o chamava de seu deus.

Havia de haver uma outra explicação.

O motivo da reunião planetária foi explicado por uma multidão de anjos, dos de guarda, que pessoalmente sussurrou o novo plano no ouvido de cada um ali reunido. O murmúrio crescente foi ficando ensurdecedor até que Deus fez com que todos se calassem, bocas coladas temporariamente como se nunca tivessem sido bocas.

– E assim será. – disse solene, com Sua voz de trovão. Mais uma série assustadora de trovões e raios seguiu-se, enquanto cada um retornava, agora boquiabertos, para o exato local onde estavam antes de serem levados à reunião. Não foi poupada pirotecnia, para que aqueles humanos vissem tratar-se de algo oficial. Nestes tempos de tecnologia, meros arbustos em chama já não seriam suficientes para chocar.

Ainda suspensos no ar, em razão da flutuação usada no transporte de retorno, surpreenderam-se todos com o último estrondo que os jogou no chão. Era o primeiro sinal de que o novo plano estava em ação.

O vendedor de cachorro-quente se viu aos pés de seu carrinho, clientes em volta, também caídos. Salas de aula lotadas de alunos jogados ao chão, as pernas presas para dentro das carteiras. Os guardas de trânsito caídos no meio do cruzamento da avenida. Carros se chocando, motoristas ainda sentados apenas por estarem presos a seus cintos de segurança, os pés ignorando os comandos do cérebro para frear.

Suas pernas não se mexiam, todos paraplégicos. Ouvia-se o desespero coletivo das bocas descoladas gritando em choro copioso.

Foi instintivamente que alguém se deu conta de que o plano tinha uma brecha. Estendendo sua mão para tocar a esposa que estava caída ao seu lado no corredor do supermercado, um homem percebeu que assim que se tocaram recobraram o movimento de suas pernas. Esse era o plano. Voltaram-se para os outros clientes da rede de varejo e começaram a ajudá-los a se levantar.

As crianças no campo de futebol se esforçaram para ficar todas de pé, mãos nos ombros umas das outras. Eventualmente alguém se esquecia e soltava a mão, perdendo imediatamente o equilíbrio e o controle das pernas, indo de novo ao chão.

A nova realidade foi aos poucos se estabelecendo como verdade absoluta e irrefutável. As comunidades entenderam o que precisava ser feito. O trabalho ainda aconteceria, mas era preciso que pelo menos dois estivessem em contato direto, as pontas dos dedos como que fios, transmitindo energia para os nervos certos do corpo do outro.

Nunca, jamais, um ser humano poderia novamente se manter de pé sozinho. Aqueles que, antes do início do plano, já não conseguiam mexer suas pernas, agora o conseguiam, graças à solidariedade involuntária de todos aqueles que antes não se atreveriam a ajudá-los a superar um obstáculo na rua, mas que agora automaticamente os tocavam quando passavam por eles, um novo costume fruto da também nova convenção de que eram todos assim.

Ele, porém, já no dia do arrebatamento se encontrava sozinho em seu apartamento havia alguns dias. O isolamento lhe convinha: produzia melhor, pensava melhor, dormia melhor. – Que horas são? – perguntou novamente.

Já fazia tanto tempo que estava ali sozinho, caído, que já não sabia se algum dia veria de novo a luz do dia.

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