Inútil

– Não quero sair de casa.
– Mas você precisa sair daí.
– Por quê?
– Você precisa ver o mundo.
– Não quero ver o mundo. Quero ficar aqui dentro, quieto.
– Saia e veja o mundo. Fique quieto, mas veja o mundo.
– Quero comer.
– Coma direito. Escolha bem os alimentos. Coma a cada três horas. Não coma bobagens. Não coma doces. Não coma sal demais.
– Quero ir ao banheiro. Quero dormir. Quero ver desenhos na TV.
– Vá ao banheiro. Não durma demais. Durma oito horas por dia. Não fique até tarde em frente à TV. Não perca a hora. Não durma de dia. Não assista TV demais. Saia e veja o mundo.
– Não quero sair de casa.
– Saia e veja o mundo.
– Por favor, não me obrigue a sair.
– Saia.

E saiu. Ao pisar para fora de casa, estava de novo em seu quarto.

– Parece que eu precisava mesmo sair.
– Precisava. Não é melhor assim?
– Já vi o mundo. Posso voltar?
– Você não quer voltar. Quer ficar aqui.
– É verdade. Quero ficar aqui. O que mais eu quero?
– Você quer comer pequenas porções.
– É verdade. O que mais eu quero?
– Você quer ser independente.
– Nada melhor. Quero sair de casa?
– Quer. Você quer ir trabalhar.
– Vou ter que obedecer a ordens?
– Claro que não. Será como nossa relação. Você só faz o que quer.
– Entendi. Pelo nosso bem.
– Pelo seu bem.
– Claro. Já posso sair?
– Ainda não. Você ainda é muito novo. Pronto: agora é a hora.

E saiu. Ao pisar para fora de casa, estava de novo em seu quarto.

– Odeio isso aqui.
– Você ainda não viu nada.
– Já posso voltar pra casa?
– Não. Limpe sua mesa primeiro.
– Mas já é o fim do expediente.
– Mas estamos fazendo isso pelo bem da empresa.
– Pelo bem da empresa, é verdade. Gosto de ver minha mesa limpa.
– Eu sei. Você também gosta de ser elogiado.
– É verdade. Mas de vez em quando penso no meu quarto.
– Que quarto?
– Esse aqui, onde estávamos antes. Quando eu queria coisas.
– Esqueça seu quarto. Foque-se na realidade. O quarto não existe mais.
– Mas é só o que vejo quando olho ao redor. Você está aí, sentado no tapete do meu quarto.
– Foque-se na realidade. O que você vê?
– Não sei. Está escuro. Vou sair da casa.
– Não! Você não pode sair!
– Mas a porta está aberta! Por que não posso sair?
– Você não quer sair.
– É verdade. Não quero sair.

E não saiu.

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Morreu sozinho

Era muito conhecido.

Morreu sozinho.

Era um mendigo.

Morreu sozinho.

Era um político.

Morreu sozinho.

Dois carros, vítimas fatais.

Morreram sozinhos.

A morte é individual. A percepção coletiva dela é justamente de quem não está mais ali.

No quarto do asilo.

Morreu sozinho.

Cercado pela família.

Morreu sozinho.

O novo plano

– Que horas são? – perguntou, sem sequer conseguir distinguir se era dia ou noite pela janela suja que mal conseguia alcançar com os olhos.

Já fazia tanto tempo que estava ali, caído, que já não contava com uma resposta. Apenas falava, para que tivesse certeza de que ainda estava vivo. Se falava e conseguia se ouvir, significava que ainda havia batimento, respiração.

Já era o sétimo dia desde que Deus, em pessoa, havia aparecido. Cada um o viu como quis, pois era preciso que o identificassem como Deus. Não houve fuso horário preferencial. Toda a humanidade, condensada numa planície, reunida num flash repentino, tal como muitos esperavam (tal como muitos jamais quiseram parar para imaginar).

Mesmo ele jamais acreditaria em nada daquilo se não tivesse visto com os próprios olhos. Mas até agora, na verdade, ainda se declarava ateu. Nem mesmo ver Deus o fez crer que Ele existe. Sabia o que tinha visto, mas não o chamava de seu deus.

Havia de haver uma outra explicação.

O motivo da reunião planetária foi explicado por uma multidão de anjos, dos de guarda, que pessoalmente sussurrou o novo plano no ouvido de cada um ali reunido. O murmúrio crescente foi ficando ensurdecedor até que Deus fez com que todos se calassem, bocas coladas temporariamente como se nunca tivessem sido bocas.

– E assim será. – disse solene, com Sua voz de trovão. Mais uma série assustadora de trovões e raios seguiu-se, enquanto cada um retornava, agora boquiabertos, para o exato local onde estavam antes de serem levados à reunião. Não foi poupada pirotecnia, para que aqueles humanos vissem tratar-se de algo oficial. Nestes tempos de tecnologia, meros arbustos em chama já não seriam suficientes para chocar.

Ainda suspensos no ar, em razão da flutuação usada no transporte de retorno, surpreenderam-se todos com o último estrondo que os jogou no chão. Era o primeiro sinal de que o novo plano estava em ação.

O vendedor de cachorro-quente se viu aos pés de seu carrinho, clientes em volta, também caídos. Salas de aula lotadas de alunos jogados ao chão, as pernas presas para dentro das carteiras. Os guardas de trânsito caídos no meio do cruzamento da avenida. Carros se chocando, motoristas ainda sentados apenas por estarem presos a seus cintos de segurança, os pés ignorando os comandos do cérebro para frear.

Suas pernas não se mexiam, todos paraplégicos. Ouvia-se o desespero coletivo das bocas descoladas gritando em choro copioso.

Foi instintivamente que alguém se deu conta de que o plano tinha uma brecha. Estendendo sua mão para tocar a esposa que estava caída ao seu lado no corredor do supermercado, um homem percebeu que assim que se tocaram recobraram o movimento de suas pernas. Esse era o plano. Voltaram-se para os outros clientes da rede de varejo e começaram a ajudá-los a se levantar.

As crianças no campo de futebol se esforçaram para ficar todas de pé, mãos nos ombros umas das outras. Eventualmente alguém se esquecia e soltava a mão, perdendo imediatamente o equilíbrio e o controle das pernas, indo de novo ao chão.

A nova realidade foi aos poucos se estabelecendo como verdade absoluta e irrefutável. As comunidades entenderam o que precisava ser feito. O trabalho ainda aconteceria, mas era preciso que pelo menos dois estivessem em contato direto, as pontas dos dedos como que fios, transmitindo energia para os nervos certos do corpo do outro.

Nunca, jamais, um ser humano poderia novamente se manter de pé sozinho. Aqueles que, antes do início do plano, já não conseguiam mexer suas pernas, agora o conseguiam, graças à solidariedade involuntária de todos aqueles que antes não se atreveriam a ajudá-los a superar um obstáculo na rua, mas que agora automaticamente os tocavam quando passavam por eles, um novo costume fruto da também nova convenção de que eram todos assim.

Ele, porém, já no dia do arrebatamento se encontrava sozinho em seu apartamento havia alguns dias. O isolamento lhe convinha: produzia melhor, pensava melhor, dormia melhor. – Que horas são? – perguntou novamente.

Já fazia tanto tempo que estava ali sozinho, caído, que já não sabia se algum dia veria de novo a luz do dia.

– Acorde!

Não reconheceu sua própria voz. Olhou de novo para as próprias mãos, tentando encontrar seus dedos, mas não conseguiu. Na extremidade de seu novo membro superior não havia dedos. Seus braços agora eram pedaços de madeira.

Como o resto de seu corpo ainda estava embaixo do lençol, achou que aquela era a única mudança que havia ocorrido. Quando tentou se virar, porém, não ouviu o som de sua pele em atrito com o tecido, mas sim o som de fios sendo arrebentados pelas arestas brutas da matéria da qual agora seu corpo todo parecia ser feito.

Não conseguia respirar. Mas surpreendentemente conseguia falar.

– Acorde! – desta vez quase gritou. Não queria tocá-la, pois tinha medo de que uma farpa de suas não-mãos a ferissem. Ainda não conseguia respirar, mas aos poucos percebeu que não era mais preciso. Tentou erguer seu tronco da cama para que sentado talvez enxergasse melhor o que estava acontecendo.

Sentia o cheiro de madeira recém cortada em si mesmo. Os móveis de seu quarto não eram tão novos para o que cheiro proviesse deles. E conhecia muito bem aquele cheiro, marcado em suas memórias de criança, quando ficava assistindo os marceneiros que trabalhavam ao ar livre na vila em que morava.

Olhou novamente para a mulher que dormia ao seu lado e viu que ela continuava sendo de carne. Chamou-a pelo nome, num tom áspero que a assustou, finalmente a trazendo de volta do sono. Ela olhou para o relógio na cabeceira da cama e o repreendeu com o olhar inchado de quem ainda queria dormir.

– O que foi?

O que foi? Como não vê o que estava acontecendo? Olhe pra mim! Não tenho mais sangue nas veias, não tenho veias! Olhe minha pele!

– Olhe pra mim!

– Estou olhando.

– Não está vendo o que aconteceu?

– Você está sonhando. Deite de novo.

Detestava quando acordava delirante e de repente se dava conta de que um pedaço de sonho havia escapado de sua boca. Detestava tanto que sua cabeça doía. Doía tanto que parecia em febre. Queimava tanto que entrou em combustão.

E morreu queimado, sem deixar vestígios de que era feito de carne.

Ding!

Foi uma viagem alucinante. Não conseguiria ter imaginado sozinho todo aquele luxo, por isso tinha certeza de que não estava sonhando. Um avião tão moderno que pudesse pousar no topo de um prédio! Que tecnologia fascinante. Adorava a tecnologia, e fazia questão de enfatizar sua admiração, sempre que tinha a oportunidade.

Entrou pela porta que dava acesso à cobertura e caminhou alguns poucos passos até encontrar o elevador.

– Ding! – fez a porta ao se abrir. E novamente, – ding! – ao fechar. Seu coração já se antecipava, disparado, cheio de ansiedade, pelo que poderia encontrar ali.

O movimento, porém, começou pouco suave, o que contrastava com toda a modernidade que cercava o hotel, mas o olhar indiferente dos que o acompanhavam o fez também tratar os arrancos iniciais como se fossem normais. As paredes vermelhas e aveludadas davam um ar muito confortável à máquina que os abrigava temporariamente.

Depois de alguns instantes em movimento, – ding! – saiu deixando os outros para trás. Era por pouco tempo, sabia; a hospedagem de todos era comum, afinal. Mas, para continuar o trajeto até o andar correto, era preciso trocar de elevador. Este tinha uma porta mais estreita, porém ainda parecia acolhedor. Entrou sozinho e logo reiniciou-se a descida, dessa vez muito mais rápida e macia.

Finalmente no andar correto, instalou-se temporariamente numa das poltronas que ali estavam, convidativas, atraentes, quentes. Pouco a pouco os outros hóspedes foram também chegando e se acomodando. Sentiu-se engraçado. Uma estranha letargia começou a fazer com que seus olhos tivessem que se esforçar mais que o normal para ficarem abertos, algo nada comum para o horário. O cheiro que de repente tomou conta de todo o hall em nada lembrava o cheiro agradável que sentira durante toda a viagem de avião, ou ainda dentro do primeiro elevador.

Um cheiro ácido, que impregnou quase que instantaneamente todo o ar.

Devia ter desconfiado. Não existe almoço grátis, menos ainda com todo aquele luxo, sem que algo seja exigido em troca.

Quando se deu conta de que precisava reagir, fugir, se esconder, já não conseguia manter-se alerta. Seus pensamentos começaram a se alternar em sua cabeça, desordenados. A boca já não mais atendia aos comandos do seu cérebro, e quando tentou gritar e perguntar o que estava acontecendo, só um gemido pôde ser ouvido. Quando o pouco de sentido que ainda lhe restava permitiu perceber que seus pés estavam ficando molhados, já era tarde para tentar dar razão ao que podia estar acontecendo.

Apagou.

Quando acordou, já não estava mais naquela sala. Quando acordou, já não era mais o mesmo.

O que havia acontecido com sua pele, com seu corpo?

Tentou se erguer do chão. Seu corpo desforme se misturava ao dos outros hóspedes, também ali jogados.

Não podia estar vivo. Se estava vivo, como explicar o fato de não ser mais a pessoa que, horas antes, havia entrado tão deslumbrado naquele elevador? O que haviam feito com ele? O que tinha feito para merecer aquele destino?

Ouviu um barulho.

– Ding!

Outra porta? No meio daquela escuridão, não conseguia enxergar nenhuma porta, ou janela, ou fresta que fosse. Mas, de repente, sem que precisasse fazer esforço, começou a sair do lugar. A massa que havia se tornado seu corpo, ali, jogado, junto aos outros que tiveram o mesmo destino que ele, começava a se mover.

– Ding!

O movimento se intensificou e logo pôde ver um fio de luz.

– Ding!

A porta se abria e se fechava incessantemente, cada ocorrência acompanhada de um maldito “ding!”.

A luz ficou mais forte e viu que metade de si agora pendia porta afora.

Destruído. Dilacerado.

De papá a cocô.