Três moedas na fonte

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Havia uma fonte num vilarejo distante da sede do reino, da qual se falava por toda a região. Dizia-se que possuía poderes mágicos, e que poderia realizar os desejos daqueles que ali jogassem uma moeda, e pedissem com todo o coração. Os moradores da vila já tinham se acostumado com o intenso movimento de camponeses visitantes, vindos das vilas próximas, que transitavam diariamente pela praça da fonte.

As crianças que moravam por ali não se atreviam a tentar retirar as moedas depositadas, pois sabiam que, assim como os desejos seriam garantidos aos que os pediram, aquele que roubasse uma moeda sofreria como consequência o oposto do último pedido ali feito. Na dúvida, era melhor não arriscar sofrer com coisas como pobreza infinita ou infelicidade e desamor eternos.

Numa manhã, porém, aconteceu algo tão inesperado quanto inexplicável. Todas as moedas da fonte haviam desaparecido. Todas, exceto três dobrões no fundo da fonte. A descoberta alvoroçou a vila. Quem teria conseguido, sem levantar suspeitas, sem acordar os moradores, retirar todas as moedas da fonte? Todas exceto três?

Ocorre que três forasteiros ali estiveram, sem que nenhum soubesse da existência do outro. Cada um fez pedidos, como faziam todos os outros, mas foram esses desejos que mudaram a história do vilarejo da fonte encantada.

O primeiro viajante, no dia anterior, esteve por ali e jogou um dobrão. Desejou que à próxima pessoa que ali estivesse tivesse seu desejo negado pela fonte. Ora, se a fonte atendia aos pedidos de coração, não seria um coração malévolo também capaz de pedir com igual intensidade? E assim se fez.

Durante todo o dia, porém, como se a fonte quisesse afastar o malfadado próximo desejoso, ninguém atirou moedas ali.

O segundo viajante, avistado por poucos que ainda estavam de pé nas primeiras horas do dia seguinte, chegou à praça central e atirou duas moedas. Não fora impelido pela fonte a se afastar, como os outros. Antes dos dobrões atingirem o fundo da água, mentalmente o homem pediu:

– Que quem me antecedeu nesta fonte tenha seu pedido negado. Que o pedido de quem me suceder seja atendido apenas pela metade.

A fonte, então, atendeu ao pedido do primeiro homem, apesar de suas más intenções, anulando assim o primeiro do segundo forasteiro. E o segundo pedido só poderia ser atendido quando uma próxima pessoa fizesse um. O homem seguiu sua viagem madrugada adentro.

Quando os galos já estavam cantando, antes ainda do sol nascer, eis que um terceiro viajante chegou com seu cavalo à praça central. Ele desceu do animal e se dirigiu à fonte. Vinha de muito longe, e não sabia da lenda do lugar. Sedento, bebeu um gole da água e viu no fundo todas aquelas moedas. Com a agilidade de um ladrão experiente, coletou todas as moedas que ali estavam, enchendo dois sacos pendurados de cada lado de seu cavalo. Montou novamente no animal que se esforçava para ficar de pé, graças ao peso da nova carga, e partiu pelo caminho. A alguns metros, porém, se deteve. Com escárnio, meteu a mão em um dos sacos e retirou três moedas. Atirou-as para trás por cima do ombro, em direção à fonte.

Desejou ter o dobro de moedas. Mas, aparente e curiosamente, nada aconteceu.