Manifesto

Queremos chuva, mas não queremos frio
Queremos calor, mas não queremos suar
Queremos praia, mas não queremos sal no corpo
Queremos amar, mas não queremos ceder

Queremos ter tempo, mas não queremos não ter o que fazer
Queremos ter o que fazer, mas não queremos fazer o que temos que fazer

Queremos saber, mas não queremos estudar
Queremos comer, mas não queremos engordar

Ô povinho difícil.

Psicopata

Já passava da meia-noite e eu estava indo dormir. Ele, ou ela, jamais saberei, estava na parede, logo acima da televisão do quarto.

rodoJá passava da meia-noite e eu estava indo dormir. Ele, ou ela, jamais saberei, estava na parede, logo acima da televisão do quarto. Era dessas lagartixas domésticas, não adestradas, que já não era mais um filhote facilmente exterminável, mas ainda não era o adulto impulsivo e traiçoeiro que costumam ser. Pensei em dormir e conviver com a presença do inimigo logo ali, na minha frente, mas, como sempre acontece, visualizei todas as possíveis trajetórias do infeliz e inevitavelmente todas passavam pela minha cama. O caminho mais desejável, a saída, seria o último que a criatura tomaria.

Decidi tentar tocá-lo. Note bem, não houve um instinto lispectoriano de ir lá e tocar NO bicho, qual G. H. e sua barata. Houve o instinto de tocá-lo dali. Muni-me de rodo e coragem. A tentativa ia bem, com o rodo indicando a barreira da qual o rabudo deveria desviar, até que a peste pulou pro meu lado e caiu entre a televisão e a parede, emaranhando-se nos fios.

Quando tentei outra abordagem, desta vez uma perseguição pelo chão, fiz, como de costume, com que o maldito fosse na direção contrária à que eu queria. Mas desta vez o destino o colocou encurralado no rodapé e me colocou numa encruzilhada. Matar ou continuar tentando espantá-lo dali?

Nos segundos durante os quais demorei para decidir, correndo o risco de perdê-lo de vista, reuni os fatos que tinha em minha experiência correndo destes répteis. Se fosse menor, seria fácil matá-lo e acabar com a agonia. Uma pancada com o rodo e bastaria. Sendo um adulto, a pancada faria com que ele soltasse sua cauda e saísse correndo desembestado para qualquer lugar, inclusive para cima de mim.

Estar ali, congelado, por segundos que fosse, catalisou em mim a raiva que sinto há tantos anos por esses bichos. Convertida a raiva, energia potencial, em movimento, energia cinética, taquei-lhe o rodo. Bati e segurei, não deixando alternativa para fuga.

Esperei, psicopata, para ver se ainda havia sinal de vida. Não houve mais movimento.

O grito de dor, o clamor por piedade, a agonia lenta e penosa pela qual o bicho passou deve ter sido ouvida.

Eu porém, não falo lagartixês. Nada ouvi.

Dormi em paz.