Sala de tortura

Havia alguns outros presos comigo. Parecia que eram cobaias de algum estudo de alguma droga nova. Ao natural, não era possível que falassem tanto sem dizer nada como faziam ali. Um deles repetia uma única frase, ao longo do dia todo. Minha vontade era sair dali, e com certeza era a vontade de todos, claro. Mas não me importava a liberdade. Eu me sentia impelido a cometer algum ato de loucura que irritasse os que me mantinham em cárcere privado para que me mandassem para a solitária. De preferência longe o suficiente para não ter que ouví-los novamente. Quanto à tortura, era até bem suportável.

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A reunião

Quando chegou e não viu ninguém, ficou confuso. Não era aquele o local combinado? Que parte da reunião havia perdido? Ou será que não era aquele o dia marcado? Por um instante, parou e tentou refazer o último encontro com o grupo, mentalmente, na esperança de que algum detalhe viesse à tona, que justificasse ele estar agora sozinho, em plena madrugada, numa praça deserta de uma cidade que nem era a sua, com frio e os olhos que mal viam a dois metros de distância, tanto pelo sono quando pela densa névoa que cobria tudo ao redor, agora muito mais intensa do que quando chegou.
Conferiu o relógio e resolveu voltar para a pensão onde estava hospedado. “Que ideia idiota, afinal”, pensava. Agora não conseguia dormir, calculando o tempo e o dinheiro desperdiçados. Começou a se odiar por ter embarcado num plano tão infantil. Quando lembrou da praça deserta, pensou que havia se metido com um bando de idiotas. Mas tinha certeza de que era o local marcado, estava anotado naquele pedaço de papel.
O papel!
Lembrou-se da anotação feita pela colega que tinha se sentado ao seu lado na reunião. Saltou da cama, novamente empolgado, e correu para a mochila que estava com o equipamento de som, onde lembrava ter visto a anotação pela última vez.
Quando achou o pedaço de papel, ficou desconcertado. Não havia nada anotado ali. Uma meia folha de papel em branco.
Ligou o computador que estava sobre a mesa. Fez uma busca rápida em sua caixa de emails, tentando localizar as últimas comunicações com os outros. Mas também não havia nada.
Começou a desconfiar que tudo não passava então de uma brincadeira de péssimo gosto. Além de o terem deixado plantado no frio naquela praça deserta, aproveitaram o tempo para invadir seu quarto e apagar os rastros de contato com ele.
“Que imbecis!”, gritou irado.
Vestiu novamente sua roupa e decidiu voltar para a praça. Algo lhe dizia que eles estariam lá, esperando o enganado voltar, para revelarem a armação.
Quando chegou no pátio do hospital psiquiátrico e não viu ninguém, ficou confuso.