Rapidinhas

Encontrou-se com o bancário, a caminho do açougue. Em vez de “como vai?”, perguntou:

– Liberou margem pro meu empréstimo?

Mais tarde, a caminho da padaria, encontrou-se com o médico. Em vez de “como vai?”, perguntou:

– Olha esse caroço aqui, será que é sério?

No mesmo dia passou pelo coveiro. Mas dele não quis um adiantamento do serviço.

Medidas

Um copo de leite: Pra receita.
Uma xícara de leite: Pro café.
Uma caneca de leite: Pra dormir.

Um copo de água: Pouca sede.
Uma xícara de água: Pouca utilidade.
Uma caneca de água: Pouca.

Um copo de café: Esquenta.
Uma xícara de café: Socializa.
Uma caneca de café: Aconchega.

Ancorado

Desmotivado, sentou-se e olhou ao redor, na pequena sombra que lhe servia de abrigo do sol que ardia. Havia mais pessoas seguindo o mesmo caminho esburacado. E, se elas chegariam lá, poderiam contar como tudo era, quando voltassem.

Mas talvez não voltassem. Ou, quando voltassem, não pudessem revelar o que lá viram. Ou, pior, não quisessem.

Ainda assim, esperava que pudesse encontrar alguém que acreditasse em seus motivos para pedir ajuda, e se compadecesse de suas mazelas particulares, que acreditava serem impedimentos para concluir a caminhada.

Reclamava das costas, dos olhos, do tempo, do clima, das formigas, das moscas, do cheiro. Sentia como se uma âncora lhe puxasse para baixo, como se não pudesse fazer nada além do nada que já fazia.

Pobre, não se dava conta: a âncora estava amarrada em suas próprias sinapses.

Insights

Insights como esse são coisas que só nos ocorrem quando estamos felizes. Quando a química cerebral colabora. Em qualquer outra situação achamos que é o mundo que está errado, não nós.

A verdade é que desagradável é quem não está feliz. Quando você está feliz você dança sem música, você canta sem acompanhamento, você sorri sem saber por quê.

Você trata bem até a quem não te agrada tanto.

Mesmo as caras feias ao redor ficam mais simpáticas. Não por elas, mas pela sua percepção delas.

Aquelas pessoas que só servem em taças enferrujadas seu fel mais amargo não estão contra você, estão contra elas mesmas.

Lápis

Aquela letra não era sua. Foi só quando olhou o que havia acabado de escrever que se deu conta de que aquele lápis não poderia ser seu, afinal. Tentou reconhecer a grafia e os padrões. Nunca havia feito corações nos pingos dos is, então deduziu que o lápis pertencia a uma mulher, talvez a uma menina, mas não achava que era alguém conhecido.

Com o passar dos dias, passou a perceber não só os traços diferenciados que o lápis desenhava quando o empunhava, mas percebeu que o domínio do que era escrito já não lhe pertencia mais. Tal qual as varinhas mágicas, a personalidade dos lápis se identificava com seus proprietários, e agia conforme eles agiriam.

Pouco a pouco se tornava mais curioso quanto ao teor das mensagens. Recados, rabiscos, figuras soltas no papel. Propunha-se a anotar uma lista de compras e acabava com um poema rascunhado. Tentava anotar um lembrete e acabava com uma declaração de amor.