Bicicletas

– Outra vez preso? Outra vez preso. Mas quem o olhasse, antes mesmo de obter a resposta, já deduziria que não era a primeira vez que ele passava por aquela experiência. Por mais que sejamos contrários e tentemos evitar todo tipo de preconceito, ni…

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– Outra vez preso?
Outra vez preso. Mas quem o olhasse, antes mesmo de obter a resposta, já deduziria que não era a primeira vez que ele passava por aquela experiência. Por mais que sejamos contrários e tentemos evitar todo tipo de preconceito, ninguém imaginaria, a princípio, que um sujeito pudesse ter adquirido todas aquelas tatuagens trabalhando num banco, ou num hospital, sei lá.
– Outra bicicleta?
Sim, era outra bicicleta. De todas as 27 vezes em que ele havia sido preso, 25 envolveram uma bicicleta. As outras duas envolveram agressão, quando não conseguiu tirar a bicicleta do dono.
Grandes, pequenas, modelos antigos e novos, femininas ou masculinas, infantis ou não. De marcha, sem marcha, com o pneu furado ou sem freio. O fato era que não conseguia se conter ao vê-las. Precisava delas.
E então, as roubava. E ia novamente preso. Quando, graças aos benefícios da lei, era novamente solto, iniciava-se uma contagem de dias na carceragem, para saber se ele bateria o próprio recorde, sendo novamente preso por outra ocorrência ciclística.
Outro dia me peguei pensando na história do indivíduo. Imaginei o que eu faria se eu pudesse voltar no tempo e encontrá-lo, criança.

Aos poucos

Não viu estrelas, nem ouviu sinos, nem gritou, nem correu, nem soltou faíscas, nem chorou, nem sentiu o bater de asas de borboletas, ou viu uma luz vinda do céu.

Apenas sentiu aquela dor lancinante. Apenas congelou-se, sem reação, na esperança de que o tempo parasse e, com ele, a dor.

Aos poucos seu dedinho mindinho do pé foi voltando ao normal.

Azul

– Me ajude aqui, to fazendo um desenho, de que cor é o céu?
– É azul.
– Ah. Mas peraí, tem uma janela entreaberta aqui na caverna, deixa eu olhar.
– Estou dizendo, oras, é azul.
– Mas peraí, sô! Tô aqui pertinho da janela.
– Nem precisa me dizer sua conclusão, por favor.
– É azul mesmo.
– Mas foi o que eu disse.
– Ah, mas é por que eu não sabia, agora no próximo desenho eu já faço azul.
– É, porque você não confiou no que eu disse. Pra que perguntou, afinal? Não perguntou porque achou que eu sabia a resposta? A lógica não é essa? E eu não te dei a maldita resposta?
– Ah, não é isso…
– Vai pro inferno.

Para as divagações, poemas. I.

Se todos os teus conselhos seguisse Ao fim da metamorfose me tornaria em ti Se todos os meus conselhos seguisses Haveria não mais outro, mas dois uns E, na diversidade de opiniões e de princípios, A parte de mim que em ti enxerga algo a imitar Se …

Se todos os teus conselhos seguisse
Ao fim da metamorfose me tornaria em ti
Se todos os meus conselhos seguisses
Haveria não mais outro, mas dois uns

E, na diversidade de opiniões e de princípios,
A parte de mim que em ti enxerga algo a imitar
Se deixa converter, se ausenta, se desfaz
O ego sai de cena, RNA em DNA

Me faço então imitador, como te fazes imitador
Exceto quando não quero, quando não julgo pertinente
Exceto quando não queres, quando me faço impertinente.