O digitador

Independentemente de como chamassem seu cargo, era um digitador. Todos os dias digitava dados a respeito de pessoas que haviam cometido crimes, das mais diversas naturezas. Em outros momentos, os dados referiam-se s vítimas. E os dados sempre i…

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Independentemente de como chamassem seu cargo, era um digitador. Todos os dias digitava dados a respeito de pessoas que haviam cometido crimes, das mais diversas naturezas. Em outros momentos, os dados referiam-se às vítimas. E os dados sempre incluíam o nome completo da pessoa, profissão, nome do pai, nome da mãe, data e local de nascimento, e números de documentos, eventualmente disponíveis.

Um nome pode conter tantas histórias, mas para ele precisavam ser meros nomes, meras sequências de letras encadeadas de forma tal que pudessem identificar um infrator, um desajustado, um injustiçado, ou um agente passivo, vítima, receptor da ação criminosa.

Contudo, era inevitável que, a cada data de nascimento digitada, ele se perdesse momentaneamente pensando naquele dia, naquela família recebendo com carinho, vindo do hospital, aquele bebê que, quem diria, causaria tantas dores de cabeça no futuro. Ao ler os nomes, pensava em como o pai devia ter idealizado um futuro brilhante para aquele filho. Como aquela mãe devia ter visualizado, em seus devaneios, o nome de seu recém-nascido estampado em notícias positivas, impresso na tarjeta de uma porta de escritório, “Dr. Fulano”.

Nomes geralmente contém histórias. Geralmente são homenagens a algum parente admirável, a alguma personalidade com alguma característica admirável. Mas para ele precisavam ser meros nomes.

E então, na mesma sequência de pensamentos, a aquarela imaginária de tons pastéis era manchada por uma tinta espirrada, pela possível imagem de pais igualmente desajustados, que tiveram na concepção daquele filho um desgosto, que em sua própria relação constituíam um desgosto. Que não se amavam, que não planejaram uma vida a dois que simplesmente aconteceu, se impôs.

Mas os segundos de conjecturas se esvaíam, e esforçava-se para que os nomes continuassem meros nomes. Depois apertava enter, para imprimir o relatório.

Uma consideração sobre “O digitador”

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