Mudando de assunto

Entrou na sala e percebeu que o assunto mudou. As pessoas geralmente são péssimas para fingir que não estavam falando sobre a pessoa que acabou de chegar. Tentam continuar uma pseudo conversa de um ponto imaginário, mas não conseguem disfarçar que, de fato, falavam do novo personagem da cena. Soam ridículas. Será que não se dão conta?

Patético.

E então falei pra ela, “claro que não, oras! eu usei caneta azul”.

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O livro

E a cada novo capítulo que lia, mais queria ler. Sabe aqueles livros que você sempre teve mas nunca leu? Daquele que você sabe sobre a história, por ter ouvido falarem, mas nunca se deu ao trabalho de ler com seus próprios olhos? Era um desses casos.
Era, contudo, um livro extenso. Talvez tenha sido esta a razão pela qual ainda não tinha tido a coragem para abrir a primeira página e dar início à leitura.
Então ouviu falar de uma nova forma de ler o livro. Mas ora, não se lê um livro sempre do início para o fim? Geralmente, sim, mas neste caso, recomendaram-no que fizesse a leitura seguindo outro padrão de progressão.
Começou, pouco a pouco, a descobrir a relação entre os textos ali contidos e a ver a beleza das palavras que lá estavam, veladas, aguardando sua atenção. Começou a sentir vontade de não só ler o que estava reservado para cada dia, de acordo com o programa, mas sim de seguir em frente, de avançar mais um capítulo, ansioso por saber o que aconteceria, por mais que já soubesse o que aconteceria, por ter ouvido falarem.
Havia redescoberto a Bíblia.
E como se sentia bem por isso.

No lugar certo

– Larga de ser cabeçudo! – era o que tinha vontade de gritar. Mas não resolveria. Tentou então argumentar. Sabia que também não resolveria, já que o interlocutor era mesmo um cabeçudo, mas, pelo bem da civilidade, ainda tentou argumentar.
– Olhe bem, você está me dizendo que usar a palavra privada, em vez de vaso, vai mudar a finalidade do objeto. Não vai! As pessoas ainda vão usar, seja privada ou vaso, para o mesmo fim.
– Mas privada soa melhor!
– Mas não vai fazer diferença nenhuma!
– Mas eu não quero que esteja escrito vaso.
– Mas as pessoas entendem as duas formas, por que só você não entende?
– Eu entendo, mas vai que outra pessoa venha a usar o banheiro?
– Quem quer que venha a usar o banheiro vai saber o que fazer! Ninguém vai cagar na pia, oras!
– Mas eu gostaria que você escrevesse privada. Faz isso por mim?
– Não, o cartaz já está pronto.
– Mas vou precisar que você refaça. Por favor? Senão não te dou do doce que trouxe pro lanche hoje.

Ao ouvir ameaça tão vã, decidiu que realmente não adiantava argumentar. Calou-se. Recusou-se a mudar o cartaz, e, em silêncio, fingiu aceitar a determinação para os futuros cartazes. E todos continuaram cagando no lugar certo, como era no princípio.

O digitador

Independentemente de como chamassem seu cargo, era um digitador. Todos os dias digitava dados a respeito de pessoas que haviam cometido crimes, das mais diversas naturezas. Em outros momentos, os dados referiam-se s vítimas. E os dados sempre i…

Independentemente de como chamassem seu cargo, era um digitador. Todos os dias digitava dados a respeito de pessoas que haviam cometido crimes, das mais diversas naturezas. Em outros momentos, os dados referiam-se às vítimas. E os dados sempre incluíam o nome completo da pessoa, profissão, nome do pai, nome da mãe, data e local de nascimento, e números de documentos, eventualmente disponíveis.

Um nome pode conter tantas histórias, mas para ele precisavam ser meros nomes, meras sequências de letras encadeadas de forma tal que pudessem identificar um infrator, um desajustado, um injustiçado, ou um agente passivo, vítima, receptor da ação criminosa.

Contudo, era inevitável que, a cada data de nascimento digitada, ele se perdesse momentaneamente pensando naquele dia, naquela família recebendo com carinho, vindo do hospital, aquele bebê que, quem diria, causaria tantas dores de cabeça no futuro. Ao ler os nomes, pensava em como o pai devia ter idealizado um futuro brilhante para aquele filho. Como aquela mãe devia ter visualizado, em seus devaneios, o nome de seu recém-nascido estampado em notícias positivas, impresso na tarjeta de uma porta de escritório, “Dr. Fulano”.

Nomes geralmente contém histórias. Geralmente são homenagens a algum parente admirável, a alguma personalidade com alguma característica admirável. Mas para ele precisavam ser meros nomes.

E então, na mesma sequência de pensamentos, a aquarela imaginária de tons pastéis era manchada por uma tinta espirrada, pela possível imagem de pais igualmente desajustados, que tiveram na concepção daquele filho um desgosto, que em sua própria relação constituíam um desgosto. Que não se amavam, que não planejaram uma vida a dois que simplesmente aconteceu, se impôs.

Mas os segundos de conjecturas se esvaíam, e esforçava-se para que os nomes continuassem meros nomes. Depois apertava enter, para imprimir o relatório.

Irritadiço

Estava irritadiço. E irritadiço é aquele estado em que a pessoa ainda diz “não tô nervoso”, já rangendo os dentes, antes de descambar para a agressão verbal. Já não conseguia mais ouvir música. Cada nota aumentava sua irritadicibilidade. As respostas aos que o rodeavam estavam ríspidas, ásperas.

Abstinência.

E na tentativa de se curar dos sintomas da falta daquela substância, entregou-se momentaneamente ao consumo desenfreado, na tentativa de que sua cabeça parasse de doer.

Maldito café.

Rotinalarme

6:00 Despertador. Soneca.
6:09 Despertador. Soneca.
6:15 Despertador. Soneca.
6:18 Despertador. Soneca.
6:24 Despertador. Soneca.
6:27 Despertador. Soneca.
6:30 Despertador. Soneca.
6:33 Despertador. Soneca.
6:36 Despertador. Soneca.
6:39 Despertador. Soneca.
6:42 Despertador. Soneca.
6:45 Levanta. Trabalha. Almoça. Trabalha.
-:— Programa o despertador.