O Mestre de Cerimônias

Lúcio era um apresentador de circo. Falar em público era sua função, anunciando que a corda bamba hoje seria sem rede de proteção e que o atirador de facas usaria uma venda em seus olhos. Nunca tinha tido problemas em se comunicar com sua platéia….

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Lúcio era um apresentador de circo. Falar em público era sua função, anunciando que a corda bamba hoje seria sem rede de proteção e que o atirador de facas usaria uma venda em seus olhos. Nunca tinha tido problemas em se comunicar com sua platéia.

Senhoras e senhores, meninos e meninas, todos o ouviam e entendiam com clareza.

Quando então apagavam-se as luzes, recolhiam-se os animais e os rostos eram lavados, Lúcio recolhia-se também, em seu furgão, para renovar as energias e descansar a voz para o dia seguinte.

As pessoas que conviviam com Lúcio, porém, sabiam que havia dois dele. A versão falante e a versão grilo. Lúcio no picadeiro e Lúcio funcional. E por mais que o circo tivesse apresentações frequentes, sua versão prevalecente era a que não conseguia jogar conversa fora.

O que se faz enquanto alguém corta seu cabelo? Conversa-se. O que resta a fazer quando se está preso numa sala de espera? Conversar. Recebeu uma visita? Entretenha-na! Converse com ela!

Mas para Lúcio, todas essas situações eram insustentáveis. Sempre acabava com todas as tentativas de bate-papo. Não conseguia puxar assunto. Até respondia, e genuinamente tentava dar prosseguimento aos assuntos que surgiam, mas era incapaz de impedir que o silêncio eventualmente se instalasse.

Ser calado o incomodava. Por que não conseguia ser como todo o resto? O que custaria falar um pouco de bobagens sobre o tempo, sobre política ou sobre futebol, vez ou outra?

Contudo, custava-lhe.

Depois de anos de agonia, sem saber como proceder com relação aos tagarelas sociais, passou a não mais frequentar estes lugares. Nem barbeiro, nem dentista, nem consultório médico. Nem mercados, nem bares, nem qualquer outro antro de conversa fiada, como os chamava.

Cabeludo, barbudo, dentes mal cuidados, saúde mal cuidada. Lúcio transformou-se num bicho.

De apresentador, em atração do circo.

De atração de circo, em velho rabugento.

E, finalmente, em peso de papel.

Mediano

Era um sujeito mediano. Peso e altura medianos. Nascido em uma família de classe média, estudou em uma escola de qualidade mediana e formou-se com notas na média. Conseguiu um emprego mediano em uma empresa de porte médio, ganhando o salário médio…

Era um sujeito mediano. Peso e altura medianos. Nascido em uma família de classe média, estudou em uma escola de qualidade mediana e formou-se com notas na média. Conseguiu um emprego mediano em uma empresa de porte médio, ganhando o salário médio de sua classe profissional. Casou-se com uma mulher de beleza mediana e comprou uma casa num bairro mediano. Passava férias em lugares mais ou menos e fazia programas mais ou menos com sua família. Teve a quantidade média de filhos do brasileiro mediano. Um dia descobriu que nasceu apenas para ter sua história contada num texto mediano de um autor mais ou menos, que no final nem seria publicado, exceto em um meio virtual. O que é, mais ou menos, o que todos fazem hoje em dia.

Apocalipse por encomenda

Então, um dia, alguém estava analisando um calendário Maia e chegou conclusão de que o mundo acabaria em 2012. Com precisão suficiente para, inclusive, dizer o dia do juízo final. Teorias contrárias surgiram dando conta de que na verdade…

Então, um dia, alguém estava analisando um calendário Maia e chegou à conclusão de que o mundo acabaria em 2012. Com precisão suficiente para, inclusive, dizer o dia do juízo final. Teorias contrárias surgiram dando conta de que na verdade o calendário indicava apenas o fim de um ciclo, que não necessariamente representava o fim da humanidade.

Mas, para os entusiastas do fim do mundo, mais uma previsão era sempre algo feliz de se ouvir. Aquela emoção do réveillon de 99, aquela aflição gostosa em 11/11/11, às 11 horas e 10 minutos,… enfim, essas pequenas alegrias estavam prestes a retornar.

Pessoalmente, não acredito numa data predefinida. Não vou dizer no que acredito, mas definir o que não, acaba delineando o que sim.

Hoje, porém, um pensamento me tomou de assalto.

A data esta lá, dita aos quatro ventos por todos aqueles que estão ansiosos por uma confirmação da previsão primitiva. Daí chega dezembro e, no dia marcado nada acontece. Ponto negativo pros Maias.

Por outro lado, imagine que algum psicótico, neurótico, louco, desequilibrado, e com acesso aos contatos certos, se disponha a cumprir a profecia. Imagine que o psicopata tenha amigos que trabalhem no LHC, ou então que tenha parceiros no oriente médio, ou ainda que conheça alguém que conheça alguém que possa conhecer alguém com acesso a alguém que trabalhe próximo a uma usina nuclear. Ou que tenha um dedo no governo de alguma potência com um potencial bélico daqueles bem impressionantes. Quando imagino esse maluco, não o imagino maluco internado numa clínica. O imagino maluco daqueles que deram certo na vida. Daqueles dos quais ninguém desconfia. Um Eike Batista com um pino a menos, sei lá.

E então, de posse de uma data hipotética, marcada numa pedra por uma civilização que nem existe mais, que só rastros deixou, o maluco decide, por conta própria, instaurar a destruição em massa.

Os Maias teriam então previsto o maluco?

Ou os Maias, estando errados, acabaram certos, com uma das maiores ações de marketing viral da história da humanidade?

O fato é que nenhum deles estará por aí pra falar: “Eu disse! Era hoje mesmo!”. E nenhum de nós estará lá para dizer “É, acabou”.

Apocalipse-nuclear