Ciclo

Tinha uma vida normal. Esposa, filhos, amigos, trabalho e vida social. Mas, uma vez por ano, sua normalidade se ausentava. Aos trinta e nove anos de idade, agia da mesma forma, ritualmente, todos os anos, havia pelo menos trinta deles. Tinha nasci…

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Tinha uma vida normal. Esposa, filhos, amigos, trabalho e vida social. Mas, uma vez por ano, sua normalidade se ausentava.

Aos trinta e nove anos de idade, agia da mesma forma, ritualmente, todos os anos, havia pelo menos trinta deles. Tinha nascido às quatro horas de uma tarde de primavera, e um dia descobriu que iria morrer. Desde então a idéia fixa de que morreria exatamente ao encerrar um ciclo de sua existência passou a dominar seus pensamentos, ano após ano. Na véspera de seu aniversário, desmarcava todos os compromissos, informava no escritório que faltaria no dia seguinte, munia-se de mantimentos suficientes para 24 horas e se recolhia, solitário, das quatro da tarde de um dia até as quatro da tarde do seguinte, esperando a morte chegar.

Trinta anos. Trinta encontros marcados. Trinta foras da ossuda.

O que o levava a se esconder não era medo. Era vergonha. Ficava imaginando a cena com seu corpo estendido no chão em algum lugar público por onde estivesse passando, e no quanto odiaria se tornar personagem de música popular, em plena contramão.

Aos 19 e aos 29, a apreensão havia sido ainda maior. Os ciclos de 365 dias anteriores não haviam se confirmado, mas um ciclo de 3650 dias? Dez anos redondos? Fatalmente seria ali que sua existência teria fim. Mas não teve, em nenhuma das ocasiões, e isso só o incomodava mais, a cada nova rodada.

E agora estava prestes a completar 40 anos. O corte afiado da lâmina da foice do anjo da visita derradeira já zunia em seus ouvidos. Despediu-se das crianças com um abraço mais forte que o de costume, deu um beijo mais demorado em sua esposa e se retirou, como sempre fazia, silenciosamente. No dia seguinte, às quatro e um, num misto de alívio e decepção, retirou-se do exílio e retomou sua vida cotidiana.

E seguiu, a cada novo ciclo repetindo seu estranho costume. Até que morreu.

Aos cinquenta e quatro anos, oito meses e sete dias de vida, às nove horas e trinta e sete minutos da noite, numa ponte aérea.

Nunca aprendeu o quanto a vida neste lugar é irregular.

5 comentários em “Ciclo”

  1. Vc captou exatamente o que eu sentir quando tinha 19 anos! Pelo que eu sei muitas pessoas passam por isso, na de maneira de morte como escrito no texto. Mais de grau de reconhecimento da sociedade do trabalho que fazemos. Parabens te acho um bom escritor. Escrevendo coisas da vida cotidiana que faz parte do nossa dia-a-dia!! Forte abraço amigo.Bruno Tinti

  2. <html><head></head><body bgcolor="#FFFFFF"><div>Valeu, Tinti!!! Me deixa muito feliz ouvir um amigo se identificando com uma história minha, principalmente porque, no fim das contas, todos os meu personagens também são eu.</div> <div><br></div><div>Abração! Estamos com saudade!<br><br>Em 19/01/2012, às 07:26, Posterous &lt;<a href="mailto:comment-EsrddgcmrJeACgk@posterous.com"></a></div></body></html>

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