Biblioteca

Havia herdado uma biblioteca. Os mais variados títulos estavam presentes no acervo. Títulos que ele olhava na estante e pensava, “como tenho sorte de possuir essas obras”. Livros considerados clássicos da literatura universal, livros que el…

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Havia herdado uma biblioteca. Os mais variados títulos estavam presentes no acervo. Títulos que ele olhava na estante e pensava, “como tenho sorte de possuir essas obras”. Livros considerados clássicos da literatura universal, livros que ele não via a hora de começar a ler.

Mas não começava.

Sentia uma necessidade pungente de organizar sua biblioteca, antes de começar a ler os exemplares. Perdia a concentração quando, no meio da primeira página de algum livro, levantava os olhos e via aquele mundo literário em meio à desorganização.

Pensava em como seria bom se houvesse um catálogo, um registro identificando cada volume, ordenado por título, autor, ano de publicação, relançamentos, separados por edições comemorativas e idiomas diferentes. Sentia prazer em mentalizar a organização que desejava. Visualizava-se em sua gigante sala de livros tendo o poder de localizar qualquer um deles que quisesse em um instante.

Mas sentia-se fraco ao abrir os olhos e deparar-se com a desorganização que recebeu por direito familiar.

Os anos foram se passando, e ele pensava em como estava deixando todo aquele conhecimento à deriva de sua vida intelectual. Distraía-se lendo revistas e periódicos de fácil acesso em outros cômodos da casa, mas entrava numa espécie de círculo vicioso de pensamentos todas as vezes que entrava na biblioteca. “Preciso começar a usufruir destes livros, ou vou deixá-los de herança, como os recebi, sem ter lido nem mesmo um deles até o fim. Mas preciso indexá-los, catalogá-los, organizá-los, ou não vou ter paz para sentar nessa poltrona e lê-los. Assim nunca os lerei. Mas preciso começar a usufruir destes livros.”

Organizar o grande saguão oval, que servia de armazém para toda a literatura que seu antepassado não havia consumido, passou a ser para ele uma questão de honra. E finalmente, depois de alguns anos, decidiu começar a hercúlea tarefa.

O trabalho já estava em andamento,  aproximando-se da metade da conclusão. Sua paixão por organização começava a ganhar forma nas estantes, antes empoeiradas.  E sorria.

O declínio da motivação, porém, não tardou a surgir. Havia exemplares sem capa, coleções incompletas, livros para os quais não havia referências facilmente localizáveis em suas fontes de pesquisa.

O trabalhou durou um longo período de tempo. Meses ou anos, não se pode precisar.

Do acervo original, pouco restou.

O que não conseguia indexar, queimava.

 

Ainda com rimas.

Sinto uma ânsia, um desejo de produzir. Quero escrever, compor, fotografar, gravar, filmar. Quero editar, sonorizar, publicar. Fazer parcerias, registrar, difundir. Mas não o faço. Ao contrário, leio, escuto, admiro, assisto. Presto atenção na edi…

Sinto uma ânsia, um desejo de produzir. Quero escrever, compor, fotografar, gravar, filmar. Quero editar, sonorizar, publicar. Fazer parcerias, registrar, difundir.

Mas não o faço. Ao contrário, leio, escuto, admiro, assisto. Presto atenção na edição, na trilha sonora, no esforço em divulgar.

Quero criar.

Mas preciso de matéria prima, de onde possa partir, fundir ao que é meu e produzir. Por isso consumo.

Mas quero produzir mais que consumir.

Assim como meu corpo, que consome energia para trabalhar, mas trabalha menos do que consome.

Assim minha idéias engordam. E ficam lá, na minha cabeça, esperando a hora de explodir.

Que se explodam!